Em Apenas Coisas Boas, Daniel Nolasco retorna ao território do erotismo masculino, mas faz disso um ponto de partida e não de chegada. Se Vento Seco já apontava para uma estética queer marcada por cores saturadas, gestos lentos e um erotismo quase mineral, aqui o diretor expande seu repertório e arrisca. O filme, que ganhou menção honrosa do júri no 33º Festival Mix Brasil, maior evento cultural LGBTQIAPN+ da América Latina, parte de um realismo rarefeito, um Brasil interiorano que mais parece sonhado do que vivido, e o povoa de figuras-arquétipo: o fazendeiro solitário, o motociclista ferido, a iconografia cowboy revisitada pelo olhar queer.
Tudo conspirava para o clichê. E, no entanto, Nolasco escapa dele com surpreendente naturalidade. A nudez é constante e explícita, mas não é espetáculo, nem provocação barata. É corpo simplesmente existindo. O filme não tem pudores porque não trabalha para tê-los. A sexualidade surge como fato, não como choque, e isso, no cinema brasileiro contemporâneo, é mais raro do que parece.
Lucas Drummond conduz a primeira metade com delicadeza e firmeza formidáveis. Seu Antônio carrega algo de luminoso, quase ingênuo, como se o tempo ainda não tivesse corroído nada. A relação com Marcelo, o motociclista, interpretado de maneira vulnerável e encantadora por Liev Carlos, nasce mais da sugestão do que da palavra. É um cinema que prefere o gesto à explicação. Por isso, essa primeira parte é um bom espetáculo.
A câmera, que é lenta, simétrica, atenta, organiza o desejo como dramaturgia. O zoom, hoje tão evitado, retorna com elegância, construindo tensões, deslocando afetos e reafirmando uma estética quase arquitetônica onde o espaço diz tanto quanto os corpos. As paisagens operam como psicologia externa: solidão, impossibilidade de fuga, repetição dos dias.
Há ali um diálogo com o melodrama e o faroeste, mas o filme não se encaixa em nenhum deles. É um cinema goiano com ares hollywoodianos, mas filtrado por uma sensibilidade queer que desmonta a virilidade clássica, transformando o fetiche em fabulação.
Na segunda metade, porém, algo se quebra, e não apenas pela intenção narrativa. Com o salto temporal e espacial, o filme abandona a fazenda e a organicidade azulada-magentada e cai numa espécie de mistério urbano, agora conduzido por Fernando Libonati. O leite fresco vira leite industrializado, o protagonista se industrializa junto. O tempo desgasta ou rearranja tudo, e aqui, rearranja de um modo brusco.
Libonati assume o personagem com cinismo, opacidade e uma canalhice silenciosa. Ele traz uma dureza que não havia antes, o que é interessante como ideia, mas nem sempre orgânico como execução. O filme migra para um quase-thriller, com pistas falsas, possíveis crimes, manchas em copos, portas arranhadas, suspeitas de envenenamento. Há até um cachorro cego que é abandonado, o que é um crime mais imperdoável do que assassinatos nas ficções contemporâneas.
Nolasco tenta reprogramar o pacto com o espectador, e a ambição é louvável. Mas a narrativa se torna irregular. A estética segue forte, mas o roteiro, porém, não acompanha. Onde antes havia silêncio e erótica da espera, agora há diálogos sem tanto rumo e, ironicamente, mais caricatos. Mas, dessa vez, sem buscar ser. Quem resiste a isso é Helga, empregada doméstica da casa de Antonio, interpretada brilhantemente por Renata Carvalho, que injeta organicidade em sequências que beiram o descontrole.
A questão não é a mudança de tom da primeira parte, mas a falta de continuidade do afeto. A paixão que movia a primeira parte não é mais vista. O que fica é o rastro da falta, não necessariamente por intenção poética, mas por desencontro de linguagem. Nolasco, ao tentar deslocar o erotismo para um mistério noir, perde parte do que tornava sua obra tão singular.
Ainda assim, Apenas Coisas Boas deixa algo. O rastro sensível de um romance que não pede licença ao tempo. A lembrança de que dois corpos, quando se encontram, criam territórios que desobedecem qualquer regra de fora. A memória de imagens que persistem mesmo quando o roteiro vacila.
É um filme que acerta muito. Que tropeça, mas não apaga a força do que construiu. Um cinema que deseja mais do que ilustrar: que inventa, reorganiza, implode e tenta de novo. No fim, é isso o que fica. Não apenas coisas boas, mas o que resta quando o amor, o desejo e o cinema tentam existir no mesmo plano e, inevitavelmente, se desfazem um pouco no processo.
A partir dessas impressões, decidi aprofundar o olhar. Procurei os atores Lucas Drummond e Liev Carlos, intérpretes de Antônio e Marcelo na primeira fase do filme, além do diretor Daniel Nolasco, para discutir algumas camadas do filme que permaneciam vibrando depois da sessão. Tive a oportunidade e a honra de conversar com eles, que gentilmente responderam às perguntas que enviei. Suas respostas atravessam esta crítica como pequenas iluminações, abrindo outras leituras possíveis e revelando detalhes de processo, concepção e sensibilidade que ecoam na obra.
Entrevista com os atores e com o diretor
![]() |
Filme: Apenas Coisas Boas Elenco: Lucas Drummond, Liev Carlos, Guilherme Théo, Norval Berbari, Cecília Brito, Fernando Libonati, Igor Leoni, Renata Carvalho, Lizz Miranda e Brenda Oliveira Direção: Daniel Nolasco Roteiro: Daniel Nolasco Produção: Brasil Ano: 2025 Gênero: Drama Sinopse: Em 1984, na região rural de Batalha dos Neves, Catalão, o solitário Antonio cuida de sua pequena fazenda. Ao ajudar Marcelo, um motociclista acidentado, os dois vivem uma intensa história de amor. Classificação: 18 anos Distribuidor: Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |


One thought on “CRÍTICA – APENAS COISAS BOAS”