CRÍTICA – O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (2026)

CRÍTICA – O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (2026)

A cineasta britânica Emerald Fennell realizou sua estreia em longa-metragens, no fatídico ano de 2020, com Promissing Young Woman, protagonizado por Carey Mulligan. A pandemia de Covid-19 trouxe uma nova atmosfera ao cinema que conhecíamos. Naquele ano, houve não apenas a centralização do streaming como principal meio de circulação, mas também a desestabilização de certas hierarquias baseadas em prestígio, fortes distribuidoras e grande escala para lançamentos que viriam, muitos inclusive, a serem realizados por cineastas estreantes. Uma reconfiguração na indústria que teve como principal repercussão a legitimação e maior propagação de um cinema “periférico” trazida para o mainstream. O fenômeno da A24, por exemplo, mostra como uma aposta inicialmente alternativa foi levada a um senso ampliado. Outro exemplo poderia ser a vitória de Anora no Oscar de Melhor Filme, em 2025, com Sean Baker, um cineasta veementemente independente retendo 4 estatuetas naquela noite.

Tendo a premiação da academia mais uma vez de exemplo: nota-se que os indicados a melhor filme referentes ao ano de 2019 detinham renome, campanha e escala consideráveis (cineastas de carreira consolidada e produções astronômicas) — enquanto, na cerimônia referente aos filmes que tiveram rodagem em 2020, com exceção de Mank, de David Fincher, todos os diretores das obras indicadas a melhor filme estavam ali realizando ou sua estreia em longa-metragens, ou, no máximo, seu segundo filme.

É nessa travessia de reconfiguração da legitimação autoral outsider e menor necessidade de um percurso industrial clássico bem estruturado, que Fennell participou da — até então — única ocasião em que duas mulheres foram indicadas ao Oscar de Melhor Direção na mesma edição (naquele caso, tendo a Chloé Zhao vitoriosa por Nomadland). É curioso reparar que, apenas alguns anos antes, seria drasticamente improvável ver aquele ensaio de vingança feminista de médio-orçamento com qualquer tipo de visibilidade nas premiações. Todavia, infelizmente, há de se pontuar que este clima de ruptura, ao trazer um cinema subjetivista dito “menor” para o centro dos holofotes em Promissing Young Woman, acabou por fazer vista grossa à uma obra que, apesar de carregar sensações proeminentes da era pandêmica, possui diversos defeitos.

Defeitos esses que voltaram a ser analisados no segundo longa-metragem da diretora. Saltburn (2023) não peca tanto na péssima montagem como no anterior, mas compartilha da mesma imaturidade e da direção pouco firme, às vezes perdida. Nesse cenário, o remake de O Morro dos Ventos Uivantes (2026) teve o elenco como a carga das expectativas. O proeminente Jacob Elordi e a estabelecida Margott Robbie, como Heathcliff e Catherine, e as músicas originais de Charlie XCX se destacam na nova adaptação do conto britânico de Emily Brontë.

A cineasta, surpreendentemente, demonstra evolução ao ser mais direta aonde pretende chegar e, nisso, aproveita para soltar a mão livremente, como se corresse espontaneamente pelos morros que filma com veemência e encanto. Ainda que não tenha alcançado plenamente uma consistência sólida, sua mais nova obra funciona bem isoladamente, ainda que seja um baile perfumático divisivo e com imensas liberdades ao conto original — o que revela ou coragem ou irreverência — ou, até mesmo, um limbo entre os dois.

Com sua doce imaturidade respingada na releitura de Catherine, Margott Robbie apresenta uma consistente infantilidade aromática degradante, composta numa interpretação dedicada e gostosa de se acompanhar. Jacob Elordi assume uma materialização masculina quase fetichista e perversa, com uma presença sempre impactante em cena. Há de se consentir que existe uma realização fetichista constantemente posta em tela — uma experimentação que exala um risco prazeroso.

A montagem de Victora Boybell, inclusive, exala este ensaio onde passagens efervescentes se transformam em clipes musicais de Charlie XCX — e, por incrível que pareça, completamente funcionais. A música aqui possui um componente crucial na química, seja pelas canções ou pela instrumentalização épica de Anthony B. Willis. A experiência se molda muito através desses momentos, ainda que haja desequilíbrio em contraste a cenas melodramáticas que se alongam mais do que deveriam.

Também é interessante como todos os personagens possuem arcos completos e bem definidos que se ampliam. Para além da emotividade carregada e ambígua na relação de Catherne-Heathcliff, que insere desejos como feridas, a criada vivida por Hong Chau (indicada ao Oscar por A Baleia, em 2023) sai da apatia para uma dor silenciosa; Alison Oliver experimenta uma chocante submissão confrontada à sua ingenuidade; Shazad Latiff demonstra integridade, mas também esgotamento; e Martin Clunes sai do dominador ao dominado. E claro, os atores mirim Charlotte Mellington e Owen Cooper (da série Adolescência) possuem participações dignas de um início de carreira promissor.

O visual se encontra bifurcado entre uma fantasia gosmenta à la Pobres Criaturas (2023, de Yorgos Lanthimos) e uma formalidade clássica. Fennell abusa de planos fechados, quase sufocantes, que miram numa estranheza claustrofóbica dialogante com a esquisitice dos sentimentos internos vivenciados — como caracóis, massas, e demais substâncias orgânicas gelatinosas. Apesar de, com isso, adicionar uma camada de peculiaridade à imersão, a cineasta não progride em termos de mise-en-scene ou sequer evita cortes previsíveis, às vezes sugerindo uma agitação que carece amadurecimento, quebrando inclusive a contemplatividade de certos momentos. É uma crítica que, ainda assim, surge como efeito colateral inevitável ao absorver o caráter ousado e inquietante de sua versão de O Morro dos Ventos Uivante.

Adotando uma progressão dispersa movida ao frenesi e explorando o descobrimento sexual intenso como pauta crucial, o título “Wuthering Heights”, levado propositalmente às aspas, remete à uma ótica infiel fetichista e disruptiva da diretora, traduzida através de um delírio inebriante e carnal; uma releitura zonza e abissal capaz de indignar e excitar carregando as mesmas falhas já reconhecidas dos trabalhos anteriores da cineasta, em especial sua imaturidade — ainda que aqui, colateralmente, esta exerça papel central para uma experiência auto-indulgente funcional notavelmente elevada pela música.


Pôster do filme O Morro dos Ventos Uivantes Filme: “O Morro dos Ventos Uivantes”
Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Alison Oliver
Direção: Emerald Fennell
Roteiro: Emerald Fennell
Produção: EUA, Reino Unido
Ano: 2026
Gênero: Drama, Romance
Sinopse: Releitura do doloroso romance, datado do século XIX, entre Catherine e Heathcliff.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Warner Bros
Streaming: Indisponível
Nota: 7,5

 

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