CRÍTICA – ISSO AINDA ESTÁ DE PÉ?

CRÍTICA – ISSO AINDA ESTÁ DE PÉ?

Desde que decidiu ser também diretor, Bradley Cooper vinha operando uma estratégia de alcançar vôos altos. Iniciou com o pé direito, e foi aclamado, em 2018, com o remake de Nasce uma Estrela, que viria a se tornar a mais conhecida das versões e rendeu o Oscar de Canção Original para Lady Gaga. Posteriormente, ficou nítido seu interesse por mais reconhecimento, quando, em 2023, dirigiu o oscarbait Maestro. Carregando algum complexo de grandiosidade e egocentrismo, o filme bateu na trave em termos de repercussão positiva. Até que chegamos a Isso Ainda Está de Pé? (2025) — o terceiro longa dirigido por Cooper e que, diferentemente dos anteriores, possui um orçamento significativamente menor. E quem sabe essa tenha sido exatamente a chave para a produção.

Sem a necessidade de comprovar sua competência como diretor — com planos exacerbantes e “caprichados” ao máximo, ou com atuações hiper fidedignas e maquiagem carregada como um ator desesperado por um Oscar (como em Maestro) —, Cooper, dessa vez, se concentra em uma boa (e pacata) história, encontrando o tom certo e atingindo uma sobriedade que só a maturidade parece proporcionar. Isso Ainda Está de Pé? é, sobre todas as coisas, um filme adulto. É leve, mas é adulto; e os mais ansiosos podem até se incomodar com isso.

Numa pegada Woody Allen entrosada com bons toques de História de um Casamento (2019), a narrativa foca inteiramente na vivência do mundo adulto matrimonial/conjugal e da parentalidade. Na trama, o ilustre casal vivido por Will Arnett e Laura Dern carrega uma sólida performance que reflete a busca por equilíbrio numa contemporaneidade que é naturalmente bagunçada. E Cooper articula muito bem o desafio de tentar manter tudo em ordem com os novos paradigmas da sociedade atual.

Não há como não antecipar que o show aqui é todo de Will Arnett. Um ator pouco conhecido, que fazia mais trabalhos de dublagens para animações e, de repente, estrela num filme sobre um pai recém-divorciado tentando se reajustar enquanto maneja uma boa relação com seus filhos e contatos pontuais com a ex-esposa — e, em meio a tudo isso, decide iniciar, do mais absoluto nada, uma carreira em stand-up comedy. Arnett faz milagre, e triunfa com tremenda espontaneidade; é, de longe, o destaque positivo do filme, tornando verossímil e lúdico aquilo que poderia soar forçado.

Para um filme assumidamente sobre stand-up comedy, é imensurável constatar o quanto ele é sem graça nesse aspecto. O que, apesar de parecer, não seria uma obrigação, é claro. Contudo, conforme nosso protagonista utiliza desse meio de expressão para extravasar suas tormentas, o valor catártico ali traz mais uma moeda simbólica do que sensações genuínas no espectador já que, paradoxalmente, existem duas plateias nesse tipo de cena: a que é diegética (os figurantes em frente ao palco) e os espectadores em frente à tela do cinema; e o contraste entre elas pode gerar algo bastante instigante. E a sintonia entre as plateias é algo que um filme produzido por Cooper (nada menos de Coringa de Todd Phillips, de 2019) havia feito muito bem, misturando uma comédia involuntária com tensão.

O filme também se mostra limítrofe quanto à exploração dos próprios bastidores da arte de comédia de palco, já que o personagem de Arnett faz amizade com diversas figuras interessantíssimas, como os carismáticos Reggie Conquest, Jordan Jensen, Chloe Radcliff — e outros atores que de fato são, na vida real, comediantes de stand-up —, que, infelizmente, são tratados com superficialidade e, inclusive, estão numa má propaganda para sua arte, já que como ressaltado, humor não é o forte do filme de Cooper (e olha que ele está em Se Beber, Não Case!).

Voltando àquilo que o filme possui êxito ao tratar, temos Laura Dern numa performance convincente e interessante, que sutilmente colabora com a visão de que as estruturas familiares estão cada vez mais adaptadas. Uma mulher com idade mais avançada, que compreende o peso do matrimônio monogâmico construído ao longo de duas décadas, é uma mãe suficientemente boa e não abre mão de se autoconhecer e realizar suas metas. Forma com Arnett uma relação crível e realista, com idas e vindas palpáveis.

O filme quebra seu ritmo com certas passagens de personagens menos interessantes, como o casal de amigos vivido por Andra Day e o próprio Bradley Cooper — que, com exceção de uma cena (do chapéu), decái o nível quando está em tela. Os avós tampouco possuem tempo de tela para uma amplitude mais detalhada do núcleo familiar – e o mesmo se diz para as crianças; ainda que gerem ótimas cenas e boas reações ao novo apartamento que o pai alugou para si no período de separação. Isso reforça a dedicação temática unilateral da obra que se limita aos desdobramentos do término de um longo relacionamento e ao inevitável apego que dificultará essa separação – com cada um utilizando das válvulas de escape que achar que mais ajude.

No fim, nem mesmo o direito à catarse é concedido. Isso Ainda Está de Pé? é um longa-metragem morno que armazena todas as suas forças no casal protagonista e suas incríveis performances. Não há explosividade, e sim uma calmaria ao encarar recomeços, parentalidade e se confrontar com suas próprias realizações, expectativas e frustrações. Contudo, fica a sensação de que, ao conter tantas emoções, o filme também se priva de voar mais alto, e há de se perguntar mesmo se ele ainda está de pé. E não serão os planos-sequências “imersivos” de Cooper ou a fotografia naturalista de seu recorrente colaborador Matthew Libatique que darão essa profundidade — no máximo, darão uma tonalidade de drama europeu clean. Existe, sem dúvida, uma organicidade palatável, mas que, ao pegar leve e adotar um tom propositalmente tênue, se apequena em uma profundidade rasa, concluindo com um retrogosto de sessão da tarde


Filme: Isso Ainda Está de Pé? (Is This Thing On?)
Elenco: Will Arnett, Laura Dern, Bradley Cooper, Andra Day, Sean Hayes, Ciarán Hinds
Direção: Bradley Cooper
Roteiro: Will Arnett e Mark Chappell
Produção: Estados Unidos
Ano: 2025
Gênero: Comédia, Drama
Sinopse: O casamento de um casal é destruído enquanto ele persegue a comédia em Nova York e ela se reencontra. Juntos, aprendam a redefinir sua relação e dinâmica familiar em meio a grandes mudanças.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Walt Disney Studios
Streaming: Indisponível
Nota: 7,5

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