CRÍTICA – AS OVELHAS DETETIVES

CRÍTICA – AS OVELHAS DETETIVES

Não consigo relembrar a última vez que assisti à um filme infanto-juvenil novo e que me convenceu em sua proposta. É um estilo de filme que — além da própria idade do público-alvo — não sinto o mesmo charme. Talvez seja pelo apelo nostálgico de sempre olhar para o passado com mais glória do que as coisas recentemente lançadas. Não tem muito o que discutir estando longe dessas propostas recentes, em que o tipo de narrativa, cadência, ritmo, recortes e discussões são algo em que não consigo observar enquanto alguém — no tempo de lançamento desse texto — com seus quase trinta anos completos. Tento sempre fugir dessas generalizações de dizer que tudo em minha época era melhor, afinal, sou outra geração Disney, de dias em que ainda era animada no estilo mais tradicional e analógico possível. São outros públicos e outros tempos. Dado todos esses preâmbulos, sim, fui convencido a ver um lançamento desse tipo por puro boca-a-boca e reação das pessoas que apareceram por conta de meu algoritmo. A batida final do martelo foi um amigo muito próximo vir falar que assistiu e que gostou bastante.

As Ovelhas Detetives… Que ideia simples, curiosa, diferenciada e esquisita. Elas estão aqui para resolver o caso de assassinato de seu pastor. É isso. Mistério. Morte. Comicidade. Animais humanizados. Caricaturesco. Nada tão inovador ou fora de mão. O que esperar? Algo que passasse por uma indiferença completa. Mais um filme infanto-juvenil e é isso. Longe de estar em decadência, somente é fora do nosso radar a quantidade vasta de lançamentos todos os anos que saem nos cinemas, streamings e pelo próprio YouTube quando não somos mais tão jovens, irmãs(os) mais novos, filhos ou qualquer núcleo de convivência desse público-alvo.

Possui um elenco com grandes nomes da indústria: George Hardy (Huck Jackman), Lydia Harbottle (Emma Thompson), Oficial Tim (Nicholas Braun) são alguns rostos familiares no elenco humano, mas o destaque são as vozes das ovelhas — Patrick Stewart, Brett Goldstein, Bryan Cranston, Julia Louis-Dreyfus. Na simplicidade dessa proposta cumprem com excelência, sem exageros e sem complicações em demasia.

A primeira e grande sacada são as piadas bem-posicionadas, promovendo um riso sincero e inocente dos trocadilhos, por exemplo: quando o açougueiro vai até ao pasto conferir e contar quantas ovelhas estão ali. Ao longo da cena em que o oficial Tim “investiga” com extrema incompetência, cortes rápidos retornam ao açougueiro que vai bocejando de cena em cena, até o momento em que nos deparamos com ele cochilando. A inocência das ovelhas descobrindo o mundo além do pasto é outra coisa que engaja, elas se assustando ao cruzar uma simples estrada, a personalidade de cada uma bem desenhada, construindo um convencimento que não vai ao vale da estranheza.

Talvez seja o elemento que mais fiquei receoso, pois esses filmes que buscam mesclar animais “realistas” com os atores, podem com certa facilidade quebrar o pacto ficcional pela estranheza ou bizarrice (principalmente aqueles que apelam no uso dos efeitos digitais sem muito orçamento) — o que está longe de ser o caso aqui. Junte isso à um arco dramático bem direcionado, objetivo e prático e a receita está ótima. O arco da ovelha desgarrada, Sebastian, tem sua emoção e nos pega pelo coração, convencendo-nos em sua conexão direta com a Ovelha de Inverno (Winter Lamb) que sofreu dos mesmos males que Sebastian e sua redenção/aceitação no rebanho por ter contribuições consideráveis na resolução do caso. Todo o elenco das ovelhas é carismático, arquetípico e bem composto. Cada uma tendo suas características visuais e personalidades bem separadas, conquistando quase que de imediato todo o público e, assim, consequentemente sendo a ponte para nossa empatia nos altos e baixos das tensões que a narrativa colocará desafiando nossas queridas ovelhas.

A estrutura da narrativa respeita ao máximo o modus operandi das histórias de Sherlock Holmes: quem matou e como matou? O que gera uma espécie de tensão é a incompetência pela qual o caso é guiado, criando-se a necessidade da intervenção das ovelhas para auxiliar na condução do caso indiretamente, provocando situações que consequentemente guiam as personagens envolvidas para as pistas, lógicas e resoluções do que ocorreu e quem é o responsável pela morte de George. Enquanto público, engajamos nessa história, acompanhando o desenlace do mistério com um texto bem fechado, sem pontas soltas e conclusivo.

Sua máxima qualidade é na definição de filme Comfort ou Cozy, aquilo que é aconchegante, quentinho, emocionante e fácil de assistir. Uma excelente obra para prender atenção, mas sem os altos e baixos de grandes tensões, metáforas ou comentários. Ovelhas Detetives. Nada mais e nada menos. Surpreende, pode provocar lágrimas e se mantém na memória enquanto filme para assistir com alguém próximo, com os(as) filhos(as) ou com qualquer criança de seu núcleo de convivência. Vá sem muita expectativa e receberá um ótimo filme para confrontar os tédios do temeroso e assustador domingo à noite.


Filme: The Sheep Detectives (As Ovelhas Detetives)
Elenco: Hugh Jackman, Brett Goldstein, Patrick Stewart, Regina Hall, Bella Ramsey, Bryan Cranston, Julia-Louis Dreyfus, Nicholas Braun, Emma Thompson, Molly Gordon, Hong Chau, Conleth Hill
Direção: Kyle Balda
Roteiro: Craig Mazin
País: Reino Unido
Ano: 2026
Gênero: Comédia, Mistério
Sinopse: Toda noite, um pastor lê em voz alta um mistério de assassinato, fingindo que suas ovelhas podem entender. Quando ele é encontrado morto, as ovelhas percebem imediatamente que foi um assassinato e acham que sabem tudo sobre como resolvê-lo.
Classificação: 12 anos
Distribuição: Sony Pictures
Streaming: Prime Video
Nota: 7,0

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