CRÍTICA – MORTE E VIDA MADALENA

CRÍTICA – MORTE E VIDA MADALENA

Dirigido por Guto Parente, Morte e Vida Madalena (2026) mergulha o espectador na vida de Madalena (Noá Bonoba) logo após seu pai falecer. A mulher, além do luto, tem que lidar com uma gravidez e com a produção catastrófica de seu próprio filme.

Morte e Vida Madalena. Morte. Vida. Qual vem antes e qual vem depois? Existe uma causalidade? Vida e morte. É o ciclo no qual todas as criaturas deste planetas estão fadadas à perpassar — a não ser que você acredite em vampiros. Para a realidade material, a vida vem antes da morte. Para o esoterismo, não necessariamente. Para o filme de Guto Parente, é menos uma relação ordinal e mais duas coisas que caminham juntas.

Já há, desde o início, um exercício de metalinguagem claro no longa. Primeiramente, é um filme sobre fazer um filme. Não exatamente uma novidade, mas admito que nutro um carinho especial por obras que se empenham em demonstrar as engrenagens, o esforço e o caos que fazem a magia da sétima arte ganhar vida. Parece existir uma desordem — não como uma característica negativa, mas natural — em um set de filmagem que inerentemente conduz uma narrativa com essa ambientação por uma espiral de descontrole e caos que é sempre interessantíssima de acompanhar — quase como um filme do Bogdanovich; ou, talvez, os filmes do Bogdanovich que pareçam com um set.

Segundamente, mais intrínseco mas não menos presente: Madalena está gestando duas vidas, aquela em sua barriga e o filme que se propõe à dirigir. Ambas as coisas caminham juntas — e, juntas também, com o próprio filme (Morte e Vida Madalena, não o filme dentro do filme). É significativo que, nesse processo, no início do longa Madalena está no início da gravidez e no início da produção de seu filme; após Madalena acabar a gravação e parir (o bebê e o filme) o longa acaba.

Falando assim, soa ordinal, vida -> morte. Entretanto, é necessário se atentar para um detalhe específico: as vidas diegéticas — aquelas que estão contidas dentro do longa, o bebê e o filme de Madalena — não alcançam sua morte. Pelo contrário, apenas ganham vida, nascem, no final de Morte e Vida Madalena. A morte da não-diegese é o nascimento da diegese. As vidas que são geradas naquele universo chegam ao mundo quando não podemos mais acompanhá-las; sua vida fica restrita fora da câmera, acompanhamos apenas a gestação. Morte e Vida Madalena morre, elas vivem. Assim, já bagunçamos um pouco a causalidade: vida -> morte -> vida.

A cena inicial do longa é o velório do pai de Madalena, que morre antes do filme começar; ou seja, morte antes de vida. Pessoas falecem o tempo todo, tanto no mundo material quanto no longa de Parente. Mas, no filme em questão, a morte é muito menos lida como “o fim de algo” e mais como “reorganização das possibilidades e surgimento de novos caminhos” — um entrelaçamento intenso da vida e da morte.

Cena do filme Morte e Vida Madalena

Ainda, a causalidade estranha-se ainda mais ao perceber um padrão específico: o filme de Madalena ainda não nasceu, ele não está pronto; entretanto, mesmo assim, ele está constantemente morrendo. Ao longo de Morte e Vida Madalena, trocentos empecilhos acontecem com a produção e fazem parecer que o filme vai pro beleléu. Arruma algo, surge outro problema maior, reorganiza a produção, vem outro BO. Percebe? Não é apenas uma morte que originou uma vida; mas algo que ainda nem nasceu e já está morrendo inúmeras vezes. Pense no vampiro que comentei antes: é quase o oposto dele. Benjamin Buttonpiro.

Essa fluidez anti-natural, na qual o filme-dentro-do-filme morre diversas vezes, faz tanto com que o aspecto inerentemente caótico dos “filmes sobre fazer filmes” seja reforçado — afinal, as “mortes” são causadas por empecilhos que desordenam a produção do filme — quanto com que Parente encontre liberdade para explorar diferentes dinâmicas e ideias.

Para começar, com cada problema surge também a oportunidade de reorganizar os relacionamentos do filmes. Alguns personagens saem, outros entram, os que ficam passam a se enxergar diferente. A câmera acompanha essas mudanças, redistribuindo sua blocagem de maneiras que assimilam as novas posições morais dos personagens — inclusive, graças a essa ideia, ocorre até uma espécie de fluidez de gênero, na qual trechos diferentes do filme parecem soar como um exercício do diretor em certa faceta do cinema.

Além da variação no olhar do mundo diegético, Parente também sabe abraçar algumas dessas ocasiões para viajar ainda mais na fluidez e na forma de seu longa. Conforme a gestação do filme de Madalena avança, ele vai ganhando novos contornos, e Morte e Vida Madalena embarca nestes contornos para carregar o espectador em uma viagem por diferentes mundos.

Não apenas contemplamos a gravação através do set do longa de Madalena, também assistimos trechos dele. Não “assistir” no sentido de “assistimos um personagem assistir”; Parente realmente nos mostra tais momentos como se fossem parte constituinte de Morte e Vida Madalena (e, de certo modo, são). As cenas ocupam o quadro inteiro, os planos do filme-dentro-do-filme ocupam a tela da nossa televisão. Surfando nessa brincadeira, o cineasta aproveita para fluir e viajar ainda mais com os gêneros e modos de filmar. Tais momentos, aqueles nos quais somos mergulhados no objeto-filme de Madalena, tem uma diferença enorme na imagem. Gravados como um filme B — meio terror, meio sci-fi, meio ação —, os momentos permitem um distanciamento ainda maior entre a natureza material da diegese e a ludicidade da imagem flexível.

Essas cenas, tão interessantes quanto o filme normal, deixam um gostinho de quero mais; um “queria ver esse filme”. Ainda, olhando a fundo — juro que não estou exagerando nem vou falar de vampiros novamente, mas coloca o chapéu de alumínio comigo —, esse alternamento entre as imagens de Morte e Vida Madalena e as imagens do filme-dentro-do-filme podem ser percebidas como momentos de morte do longa de Parente. Morte e Vida Madalena morre por alguns segundos e cede seu espaço para ser habitado por outro filme, um que nem nasceu ainda — e em um sentido metafísico, nunca nascerá. Morte, vida, morte, vida. Vida e vida, morte e morte.

Em Morte e Vida Madalena, vida e morte não ocupam extremidades opostas de uma linha, mas coexistem como movimentos de um mesmo processo. Fazer um filme é permitir que ele morra continuamente: abandonar planos, perder pessoas, reformular relações, desmontar uma ideia para que outra possa ocupar seu lugar. O filme nasce como um fruto de tudo aquilo que um dia pareceu capaz de matá-lo. O mesmo vale para Madalena; sua gestação avança paralelamente à produção de um modo bem entrelaçado: ambas as “gestações” submetem seu corpo e seu mundo a transformações que ela não controla inteiramente. Tanto o bebê quanto o filme dependem dela para existir, ao mesmo tempo que constantemente reorganizam sua vida antes mesmo de nascer.

No fim, nós não acompanhamos o bebê crescendo nem o filme encontrando seu público, porque esse já seria outro ciclo, outra história, outras mortes e outras vidas. Parente nos deixa no limiar, naquele instante em que aquilo que gestávamos deixa de nos pertencer e passa a existir fora de nós. Morte e Vida Madalena acaba, o filme de Madalena começa a ser exibido; Madalena deixa de estar grávida, uma criança passa a habitar o mundo. Qual vem antes e qual vem depois? Pouco importa; a morte não sucede a vida nem a vida sucede a morte, uma abre espaço à outra incessantemente — a não ser que você seja um vampiro.


Pôster do filme Morte e Vida Madalena Filme: Morte e Vida Madalena
Elenco: Noá Bonoba, Nataly Rocha, Tavinho Teixeira, Marcus Curvelo
Direção: Guto Parente
Roteiro: Guto Parente
Produção: Brasil
Ano: 2026
Gênero: Comédia, Drama
Sinopse: Após a morte de seu pai, Madalena precisa lidar com uma gravidez e a produção desastrosa de um filme.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Embaúba Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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