CRÍTICA – VIDEODROME: SÍNDROME DO VÍDEO

CRÍTICA – VIDEODROME: SÍNDROME DO VÍDEO

Tudo bem, com tantas críticas de filmes antigos, é um real pecado não ter nenhuma crítica da cinematografia do David Cronenberg, um dos diretores mais influentes, criativos e únicos na história da sétima arte. A ironia fica em já existir uma crítica de seu herdeiro, sucessor e filho, Brandon Cronenberg – Piscina Infinita (2023). Com um peso grande nas costas e compromisso com nossos leitores, assumi essa responsabilidade de pôr um fim nessa pendência, trazendo minha visão, interpretação e entusiasmo com essa carreira belissimamente contundente, condizente, criativa e aterrorizantemente sedutora…

Nada melhor do que começar com um dos seus grandes clássicos cult, Videodrome (1983), primeiro longa-metragem do diretor que tive contanto e muito provavelmente o filme dele que mais revisitei ao longo desses anos. Alguns vão e podem discordar, mas considero uma excelente porta de entrada para sua cinematografia, pois, Videodrome carrega em grande suma o ápice (talvez) de sua identidade visual e narrativa, embalsamando grande parte de seus leitmotifs, discussões e críticas imbuídas em seu texto com maestria. Se você não conhece ou pensa em recomendar para outros amigos que estão entrando na cinefilia, acompanha o texto e espero que compreenderá o porquê dessa ideia.

Acompanhamos a jornada da personagem Max Renn (James Woods) que é produtor de uma TV a cabo focada em conteúdo adulto, buscando um estilo de filmagem mais pesado, brutal e fora do convencional, através de seu funcionário hacker de sinais de satélite Harlan (Peter Dvorsky) captura uma filmagem pirata e ilegal do programa intitulado Videodrome, que é o clímax de violência, sexo e brutalidade, surgindo dúvidas que posteriormente serão supridas sobre se o conteúdo é snuff ou não. O contato do protagonista com essas filmagens irá afetar sua psique e de seus próximos a níveis de alucinação e quando apresenta para seu interesse romântico Nicki Brand (Debbie Harry). Essa “aventura” do protagonista o levará a adentrar em um mundo de conspirações, manipulações e disputas pela percepção da própria humanidade em relação ao que é real ou não.

Antes de levantar qualquer debate sobre as ideias, críticas, metáforas e discussões levantadas pelo texto do longa, vamos para alguns pontos mais diretos e rápidos: as atuações não possuem nada absurdamente surpreendente, porém, naquilo que o filme se compromete é genuinamente imersivo, sem buscar a famosa verossimilhança ultrarrealista ou a caricatura extrema, adentrando em uma estratégia de “normalização” daquilo que se apresenta surreal e/ou sobrenatural para atingir essa zona de “estranhamento” sem reações absurdas ou indiferenças descreditáveis. James Woods assume reações, ações e expressões convincentes e que acompanham a insanidade que a narrativa ousa explorar a cada nova proposta absurda que é apresentada.

A simplicidade da fotografia somada aos efeitos especiais práticos faz reviver o charme da década de 1980 do cinema de terror/horror. Por mais que possam adquirir características hoje que podem associá-lo ao trash, está longe de propor absurdismos narrativos que escapem do palpável ou uma exploração da narrativa pura, visando estética e entretenimento, mas abandonando o conteúdo em comparação ao cinema mais crítico, conteúdista e metafórico – por favor, longe disso ser uma relação de bom e ruim-, assim Videodrome é uma boa refeição que junta os aspectos positivos de ambos os mundos  nos modos de fazer cinema. A trilha sonora composta por Howard Shore (parceiro de longa data do diretor) é incrível em sua simplicidade acústica, utilizando sintetizadores como protagonistas da sonoridade para gerar ambiguidades, estranhamentos e seduzir o público em um ambiente esquisito e familiar simultaneamente.

Além de Cronenberg – não somente no longa-metragem em questão, mas todos os seus outros filmes reforçam pesado a questão do gênero narrativo/estético, longe de buscar obras fronteiriças (apesar dessa discussão ser mais do que possível), é uma ode que acompanha as tendências de um dos períodos de absurda qualidade da ficção científica no cinema, literatura e quadrinhos, partindo da influência do movimento da New Wave (Phillip K. Dick. Brian Aldiss, Michael Moorcock, Ursula K. Le guin, Harlan Ellison). As conexões discursivas dessa nova onda da ficção científica refletem diretamente no texto criativo de Cronenberg, então, vou tentar aqui – minimamente – apresentar e refletir sobre vários dessas ideias/argumentos presentes:

O aspecto de maior paralelo em grande parte das obras de ficção científica da New Wave é a visão crítica na relação homem e tecnologia, visando uma desconstrução de todo o idealismo advindo do positivismo (iluminismo) que podem ser muito bem sintetizadas de que o desenvolvimento científico trás progresso para a humanidade como um todo. Esses autores, percebendo as contradições da realidade e vivendo no apogeu da Guerra Fria (testemunhando o temor nuclear) e os terrores ocorridos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) iniciam um movimento em suas obras de tecer uma visão pessimista e crítica da tecnologia. Não é coincidência que o Cyberpunk enquanto subgênero e temática nascem nessa mesma década. A onde, então, Videodrome pode se encaixar nessa visão crítica as contradições dessa relação homem-máquina?

A tecnologia no centro do debate é a televisão. Esse objeto que adentrava na maioria das residências de famílias de classe média, objeto de luxo para as classes pobres e responsável por levar as imagens móveis para os lares. A “tela” constitui a realidade – naquele período longe das miniaturas hoje que vivem como extensão dos indivíduos, os celulares – é a autoridade modeladora do “real”. Max Renn enquanto produtor de um canal de televisão, é um agente influenciador e com o poder de “escolha e imposição” diante de seu público. Max Renn, agente influenciador, torna-se vítima de uma conspiração quando testemunha as filmagens do Videodrome, pois através dos sinais emitidos pela televisão, é afetada sua percepção da realidade, criando uma série de alucinações e modulando seu comportamento/opinião/percepção sobre o real. A televisão aqui incorpora quase um meio de viver, de testemunhar a realidade, através de suas imagens e aquele que estiver fora disso não tem a permissão de existir, pois não vive nessa realidade que a televisão é moldadora.

 

Imagem: lugar em que os moradores de rua vão ter “tempo de tela”.

 

Então, nesse universo ficcional, existe uma igreja que faz um trabalho com a população socioeconomicamente carente permitindo-as comer e ter seu tempo de tela. Max Renn, então, se afunda nessa “realidade” televisiva, percebendo um mundo em que o “real” é relativo. Nesse momento da igreja surge um personagem chave, que é o Professor O’Brian Oblivion (Jack Creley) que incorpora a máxima desse discurso: seu corpo físico morreu, mas ele gravou centenas de fitas VHS para cada tipo de situação e reflexão, sua filha Bianca Oblivion (Sonja Smits) deixa bem claro: morrer no plano físico não necessariamente significa a morte definitiva, pois seu pai continua vivo através de suas gravações e da televisão. O que faz uma coisa ser mais real do que a outra?

É quase inacreditável ver indivíduos que ousam falar que o filme envelheceu mal em sua argumentação, pois continua plenamente atual, pois as pessoas nessa realidade ficcional precisam do famoso “tempo de tela” – agora, faça a provocativa reflexão de puxar esse discurso para os dias atuais? O famoso “tempo de tela” ligado principalmente aos celulares extrapolam os espaços, constituindo um objeto controlador dos olhos, do entretenimento, da vida privada e pública. Não existe mais um “existir” sem estar conectado, mesmo que seja somente pelo âmbito profissional, é um objeto facilitador e impositivo sobre os indivíduos, infiltrando nas psiques e gerando dependência da sociedade a cada nova geração com maior intensidade. Como não se conectar ao New Wave, com uma visão ácida sobre essas contradições da tecnologia? O mais interessante é que se distancia do ludismo, em que a culpa das mazelas da sociedade é a tecnologia em si, pois sua narrativa abraça a responsabilidade dos indivíduos por trás dessa manipulação do real, das psiques e das percepções do macrossocial e microssocial. Até mesmo Max Renn, que pode ser visto como alguém detentor de certo controle dessas “telas” e sua programação se torna vítima desses agentes conspiratórios que disputam não só mais pelo domínio físico dos indivíduos, mas por colonizar a própria “mente” da sociedade de classes.

A figura emblemática que incorpora essas contradições e esse palco de disputas é Barry Convex (Leslie Carlson), CEO da empresa Spectacular Optical, trabalhando como ótica para o público convencional e produzindo armas tecnológicas para a OTAN e, também responsável pela produção do Videodrome. É interessante a coincidência dele trabalhar tanto no ramo da ótica (produzindo óculos) e o Videodrome, pois ambos envolvem o “olhar” dos indivíduos. Quando Max Renn questiona as intenções através do Videodrome, encontramos um discurso conservador e fascista: criar um verdadeiro e puro norte-americano, pois os indivíduos estão fracos, quebrados e abandonando aquilo que os fazia tão grandiosos. Através do Videodrome, é possível reprogramar as pessoas, controlando-as através dos “tumores” que são gerados em seus cérebros para construir uma nação gloriosa, longe de toda podridão e corrupção da sociedade.

A manifestação desse “controle”, “manipulação” e “programação” dos indivíduos – é lindissimamente esculpida no Body Horror tão presente na identidade criativa do Cronenberg em grande parte de sua cinematografia. Conforme Max Renn consome o Videodrome – sem compreender em totalidade os danos que está colocando sobre si mesmo que levam no clímax de violência – as alucinações vão se infiltrando em sua realidade. A famosa e icônica cena de sexo com a própria televisão que corporifica o “corpo” de Nicki, respirando, gemendo, seduzindo, convidando Max Renn para entrar nela, observamos a metáfora na máxima, pois Max Renn enfia sua cabeça na televisão

 

Imagem: Max Renn colocando a cabeça dentro da televisão.

 

Max Renn no ápice dessa entre o que é real ou não, adentrando na paranoia e ao mesmo tempo perdendo a capacidade crítica de discernir essas manipulações, tem a manifestação de uma “boca”, “vagina” ou entrada orgânica de “VHS”, pois ele próprio se torna o “vídeo” nesse momento, em que as instruções dos conspiradores Barry Convex são entregues através da inserção de uma fita nessa abertura no meio de seu estômago. A partir da primeira “ordem” que é inserida em sua persona, Max Renn perde a própria personalidade, individualidade para ser um agente manipulado pelos jogadores, seja pelos interesses corporativos de Barry Convex ou pela suspeita Bianca Oblivion. Max Renn se une com a própria tecnologia, representado não só por essa boca, mas a mão orgânica/mecânica fundida com o revolver através de tubos, parafusos e carne, – cena belíssima, icônica e memorável – tornando-se a “Nova Carne” e operando em torno dessa nova vida, pois ele representa esse novo indivíduo puro, moldado pelo sexo, tortura e violência, repetindo a frase “Long Live the New Flesh” (Vida Longa para a Nova Carne). Ele é a personificação do que o Videodrome ambiciona por transformar a sociedade norte-americana, esse puritanismo unido com a tecnologia, se tornando um só para trabalhar sem questionar aos interesses das elites dominantes…

São tantos pontos e reflexões possíveis, tantas belezas que podem ser encontradas em cada experiência reassistindo esse longa-metragem, daí mostrando a infinitude dessa obra e sua longevidade, jamais caindo no esquecimento daqueles que ousam criar. É um símbolo  das respostas não definitivas e das prováveis variadas interpretações. Fico imensamente feliz de poder deixar um número pequeno, mas considerável de palavras, ideias, reflexões, impressões sobre esse diretor – que prometo retornar com outros filmes de sua carreira aqui – que é tão emblemático e importante na minha trajetória pessoal de cinefilia. Vida longa ao cinema – apesar de estar morto em tantas instâncias ainda respira no terror e horror (opinião polêmica em), e que seu legado jamais seja abandonado para continuar inspirando outros criativamente em modelar realidades aterrorizantemente reais e imaginárias…

LONG… LIVE… THE NEW FLESH!


  Filme: Videodrome
Elenco
James Woods, Debbie Harry, Sonja Smits, Peter Dvorsky, Leslie Carlson, Jack Creley, Lynne Gorman, Julie Khaner
Direção
David Cronenberg
Roteiro
David Cronenberg
Produção
Canadá
Ano
1983
Gênero:
 Terror, Mistério, Thriller
Sinopse:
Max Renn (James Woods), o dono de uma pequena emissora de televisão a cabo, capta imagens de uma “snuff,” que seriam cenas de pessoas que eram realmente torturadas e mortas. Gradativamente Max fica sabendo que esta transmissão se chama Videodrome, que na verdade é muito mais que um mórbido show de televisão. 
Classificação
18 anos
Distribuidor
The Criterion Collection, Universal Pictures
Streaming:
Prime Video
Nota
10

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