A mulher nasceu para ser odiada. Isso é o que uma grande parcela da sociedade mundial pensa. Se lembrarmos da história da nossa civilização, vamos encontrar em cada capítulo – na Antiguidade, na Idade Média, na época da Revolução Industrial e até mesmo nos séculos mais recentes, chegando aos dias de hoje – que a trajetória feminina se resume a condição de objeto e/ou animal a ser domesticado através de uma perspectiva masculina. Por outro lado, é também marcada pela resiliência e constante luta por direitos, o que se tornou mais forte com o surgimento do Movimento Feminista.
Aqui no Brasil, enfrentamos uma onda de ataques à mulher que parte das redes sociais, sobretudo de canais do Youtube comandados por homens do dito movimento Redpill. Este movimento consiste em atacar as mulheres, apontando-as como responsáveis por toda e qualquer “injustiça” para com os “homens de bem” – principalmente aqueles que entoam o lema “Deus, pátria e família”. Esses canais estão cheios de misoginia, discurso de ódio e violência de gênero. Tal movimento ficou tão forte que a Deputada Federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) apresentou no final do ano passado a PL 6075/2025, que acrescenta artigo ao Código Penal para tipificar a promoção, incitação e divulgação de conteúdo misógino capaz de estimular hostilidade, discriminação ou violência contra mulheres. A proposta foi apresentada diante do aumento de casos de feminicídio no Brasil e do caráter de extrema violência que tem marcado esses crimes.
Nesse sentido, 100 Noites de Desejo (2025), filme dirigido por Julia Jackman, dialoga muito com toda a luta enfrentada pelas mulheres desde que o mundo é mundo. Em uma típica fábula do “Era uma vez…”, Jackman conta a história de Cherry (Maika Monroe), uma jovem esposa que precisa a todo custo engravidar, pois este é o ciclo de toda mulher: Nascer, casar e ter filhos.
Aquele mundo tem, na figura do “Birdman”, um Deus ao qual todos são devotos, principalmente pelo medo – sentimento este que é alimentado pelos Irmãos Bico, os representantes da Igreja. A diretora aqui constrói uma sociedade muito próxima ao que tivemos ao longo de nossa história e que reflete em muito do que temos até hoje. Não é dificil de imaginar o quanto de poder tem a Igreja Evangélica na sociedade brasileira atual, não só através dos cultos, mas, principalmente, pelo avanço cada vez mais proeminente para dentro da nossa política.
Cherry, casada há pouco mais de 6 meses, tem pela frente um desafio: engravidar em cem noites, caso contrário não verá o centésimo primeiro dia. Tal ameaça é feita pelo sacerdote em uma reunião na qual estão, de um lado, toda a família do marido, Jerome (Amir El-Masry), e, do outro lado da mesa, Cherry sozinha. Nesse momento, fica claro todo o peso de ser mulher naquela sociedade, que só encontra um refúgio no apoio de uma outra mulher, que aqui se personifica em Hero (Emma Corrin).
Hero é a criada de Cherry, mas essa relação vai além da servidão; está mais para uma amizade com afeto genuíno. Hero, nessa história, vai servir não só de apoio para Cherry nos desafios que virão, mas também como a porta-voz da luta feminina. Ela faz parte da “Liga Secreta das Contadoras de História”. E as histórias contadas tem um objetivo muito claro: espalhar a palavra e iniciar a revolução. Contudo, aqui elas encontram ainda um novo sentido: Servirão como proteção para Cherry.
Jerome é um homem gay e, sabendo que não poderá jamais engravidar sua esposa, desafia um amigo, Manfred (Nicholas Galitzine): se ele, em 100 noites, conseguir se deitar com Cherry, poderá ficar com o castelo; caso contrário terá que engravidar uma outra mulher e dar essa criança a Jerome assim que nascer. Essa é mais uma demonstração que a vida de uma mulher vale pouco ou quase nada, no contexto criado pela diretora, mas que pode ser replicada, facilmente, para o mundo real. Manfred é um homem atlético, bonito e sedutor que vai utilizar todas as armas que tem para conseguir se aproximar de Cherry. Mas é aí que entra a história das “Pedras Flutuantes’ contada por Hero. Tal artimanha funciona como um acordo que elas põem em prática sempre que Cherry se sentir encurralada por Manfred.
A história dentro da história é sobre as irmãs Mina, Caterina e Rosa e a arte de bordar histórias – já que bordar era a única atividade pensada para as mulheres. Três mulheres a frente do seu tempo e que ousaram subverter a ordem. Três mulheres que tiveram um fim trágico, mas cujas histórias continuaram sendo contadas ao ponto de, através de Hero e Cherry, a revolução enfim começasse.
100 Noites de Desejo é um hino sobre a força da mulher e sobre como elas só podem apoiar-se mutuamente. Esperar algo do homem é sempre incerto e perigoso. Até mesmo aquele que se diz mudado e tocado, ao menor sinal de que seu poder pode ser diminuído ou retirado, vai se posicionar firmemente ao lado daqueles que sempre as oprimiram.
![]() |
Filme: 100 Nights of Hero (100 Noites de Desejo) Elenco: Maika Monroe, Emma Corrin, Nicholas Galitzine, Amir El-Masry, Safia Oakley-Green, Richard E. Grant, Clare Perkis, Josh Cowdery, Christopher Fairbank, Olivia D’Lima, Kerena Jagpal, Charli XCX Direção: Julia Jackman Roteiro: Isabel Greenberg, Julia Jackman Produção: Ano: 2025 Gênero: Drama, Fantasia, Romance Sinopse: Quando um encantador hóspede chega a um castelo remoto, a delicada dinâmica entre um marido negligente, sua inocente noiva Cherry e sua devotada empregada Hero se transforma em caos. Classificação: 14 anos Distribuidor: Paris Filmes Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |

