Sigo na busca de filmes que tragam reflexões profundas e propositivas sobre a paternidade, questionando como a imagem do pai provedor e ausente se manteve por séculos — ou, pior, aquela figura clássica dos memes sobre o sujeito que foi comprar cigarro e nunca mais voltou. Diversos filmes tentaram falar de forma mais direta sobre a paternidade, mas a grande maioria foi pensada sob o viés da comédia, em que fazer o mínimo era o suficiente para o título de “superpai”. Dois exemplos recentes disso são Paternidade (2021), da Netflix, e Papai é Pop (2021), filme nacional estrelado por Lázaro Ramos, ambos com críticas aqui no site.
O filme Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho chegou como uma cabine de imprensa online às vésperas do Dia dos Pais, e esse apelo de marketing me despertou a curiosidade. Essa produção holandesa, ao contrário dos filmes citados antes, joga o olhar sobre um outro aspecto da paternidade. Na trama, acompanhamos Maarten (Leo Alkemade), pai de dois filhos, casado, que trabalha em home office. Ao receber a notícia de que seu pai, Hans (Huub Stapel), está com câncer, ele propõe uma viagem a sós para os dois.
O filme, em seu início, nos mostra a dinâmica daquela casa e, por alguns segundos, chegamos a pensar que veremos novamente aquela ideia equivocada — que já discuti em outras críticas — de que um filme sobre paternidade precisa apagar a mãe para evidenciar o papel do pai. Muito embora isso não aconteça de forma clara, as figuras maternas aqui não chegam nem ao segundo plano. Elas são, propositalmente, invisibilizadas e caladas. A mãe de Maarten, Sophie (Beppie Melissen), por exemplo, tem uma preocupação real com a saúde de Hans e com o consumo de bebida alcoólica, mas a condução do filme a coloca, de certo modo, como exagerada. Essa dinâmica familiar já mostra um certo descontrole de Maarten com seus filhos, cujas responsabilidades ele simplesmente transfere para os avós paternos.
Conheço e defendo a necessidade das redes de apoio. No mundo em que vivemos, dar conta de tudo sozinho está cada dia mais difícil. Quando um bebê chega em casa, toda a dinâmica muda, as exigências são outras e a demanda é de 24 horas por dia. Mas, no caso do filme, não há uma construção sobre isso. O que vemos são os pais delegando os filhos aos avós, o que fica muito claro na fala da esposa de Maarten, Loes (Jennifer Hoffman), após saber do diagnóstico do sogro: “Será que ele vai conseguir cuidar das crianças?”. Não vemos Maarten, no início do longa, em momento algum brincando com seus dois filhos ou sequer falando sobre eles. Em toda a viagem, apenas em uma ligação para a esposa, na qual ele pergunta rapidamente pelas crianças e só.
O trato entre pai e filho, embora o título do filme jogue luz sobre isso, é infelizmente ínfimo. Eles sequer possuem assuntos em comum. Já no início da jornada, recorrem a Félix (Guus Meeuwis), amigo de Maarten — que originalmente fizera uma viagem dessas com o próprio pai —, para saber o que eles fizeram e sobre o que conversaram. A composição das cenas que antecedem esse momento evidencia uma barreira invisível entre Maarten e Hans. O diretor Tim Kamps decide filmar os dois de forma separada, mesmo estando lado a lado dentro do carro: primeiro Maarten, depois Hans. O filme se desenha como o resgate de uma conexão que um dia existiu, mas o que percebemos é que ela nunca se estabeleceu. Maarten sequer sabe qual era a profissão do pai. Por outro lado, quando pergunta sobre a própria infância, Hans responde prontamente: “Você vivia aprontando e eu vivia te castigando”. Temos aí o real significado de paternidade para a obra.
A obra é categorizada como uma comédia dramática e de fato o é. O ponto mais acertado aqui foi o equilíbrio das emoções. Existe a aventura de pai e filho em uma viagem de carro pela Europa, ao mesmo tempo em que o drama se insere nesse mesmo elemento, uma vez que esta pode ser a última oportunidade de estarem juntos. Já o humor fica por conta da atuação espirituosa de Huub Stapel. Sua indignação com o mundo moderno de carros elétricos, inteligência artificial e GPS funciona muito bem como contraste a uma outra época, em que conversávamos e tínhamos experiências mais sensoriais — como o próprio ato de se perder usando apenas um mapa físico.
Essas emoções certamente chegarão ao espectador. Sobre isso, preciso citar outra produção holandesa, o longa Além do Tempo (2022), pois em ambos esse tom dramático é muito bem trabalhado. Em Além do Tempo, o luto é sentido de forma direta e intensa. Em boa parte do filme Champagne, a ideia de perda está sempre iminente, mas sem se concretizar. Isso não diminui a tensão, mesmo que, por muito tempo, o ambiente seja leve e regado a bastante champanhe.
No fim, a cultura da ausência, de ser somente um disciplinador ou o provedor, já fincou raízes em mais uma geração. Maarten é esse pai ausente, assim como seu pai foi para ele. O filme se conclui sem que haja uma conexão real entre os dois. A viagem, portanto, nada mais foi do que dois homens em uma eurotrip bebendo espumante, enquanto suas esposas continuavam em casa, lidando com todas as demandas domésticas e familiares que a sociedade culturalmente lhes impõe.
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Filme: Champagne (Champagne – Uma Viagem de Pai e Filho) Elenco: Leo Alkemade, Huub Stapel, Beppie Melissen, Jennifer Hoffman (Loes), Guus Meeuwis Direção: Tim Kamps Roteiro: Leo Alkemade e Rik van den Bos País: Holanda Ano: 2026 Gênero: Comédia, Drama Sinopse: Maarten leva seu pai doente para a região de Champagne, na França. O que começa como uma viagem embaraçosa acaba sendo a mais bela aventura deles juntos. Classificação: 14 anos Distribuidor: Autoral Filmes Streaming: Indisponível Nota: 4,5 |

