Desde o lançamento de Bohemian Rhapsody (Bryan Singer, 2018), as cinebiografias dedicadas a personalidades da música caíram nas graças dos estúdios e produtoras, certos da capacidade de filmes desse subgênero atraírem às salas de cinema uma base fiel de fãs ávidos por verem seus ídolos representados nas telas. Enquanto Hollywood concentrou sua produção na dimensão ficcional – como no caso dos trabalhos acerca de Elton John, Elvis Presley, Bob Marley, Bob Dylan, Michael Jackson etc. –, o cinema brasileiro tem preferido adotar um caminho no qual filmes ficcionais (Homem com H, Nosso Sonho, Meu Nome é Gal, entre tantos outros) dividem espaço com documentários, como exemplificam obras relativas a Beth Carvalho, Racionais MC’s, Luiz Melodia, Milton Nascimento, dentre outros.
Essa introdução contextual se faz importante na medida em que ela permite trazer à tona uma diferença crucial envolvendo as cinebiografias musicais. Embora não seja regra, as ficcionais tendem a ser mais lineares e comportadas em seu desenvolvimento formal e narrativo, seguindo um estilo que se convencionou chamar de “padrão Wikipedia”; por sua vez, aquelas que optam pelo caminho documental costumam lidar com seus homenageados de maneira mais complexa e menos chapa branca. Esse é justamente o caso de Gonzaguinha, Da Maior Liberdade, ganhador do prêmio de Melhor Longa-Metragem Documental no Festival de Gramado 2026, que chega aos cinemas do país nesta semana.
Por reconhecer a ambivalência da personalidade de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, a diretora Susanna Lira (Torre das Donzelas, Mussum: Um Filme do Calcidis, Fernanda Young: Foge-me ao Controle) transforma o seu documentário numa espécie de espelho da trajetória desse homem singular, de facetas diversas, não raro conflitantes, porém complementares. Isso é conseguido por meio da montagem, que ao tratar de modo não linear a vida e obra do músico nascido e criado no Morro de São Carlos, confere um tom caleidoscópico e dialético ao filme. Essa estruturação narrativa mostra-se, portanto, em sintonia com o perfil de Gonzaguinha, dentro e fora dos palcos.
Engrandece o trabalho o fato de Lira ter optado por expor Gonzaguinha a partir de relatos do próprio cantor em entrevistas, o que torna ainda mais desconcertante o quebra-cabeça vai sendo construído a seu respeito. Evidencia-se, inclusive, o quão consciente ele estava a respeito da complexidade que trazia consigo enquanto indivíduo, cingido, de maneira dual, por duas dimensões. A primeira o moldou em sua socialização, marcado que fora pelo contraste entre o amor incondicional recebido da parte de seus pais de criação (Leopoldina e Henrique) e a distância física e emocional em relação ao seu pai biológico, Luiz Gonzaga – vale salientar, contudo, que essa paternidade do Rei do Baião mantém-se como algo controverso até os diais atuais. A segunda dimensão refere-se à forma como o público de décadas atrás o concebia frente à sua produção musical, seja em sua vertente mais explicitamente política e contestatória – o que lhe renderia, recorrentemente, problemas junto aos censores –, seja em sua vertente mais direcionada a cantar o amor sob uma perspectiva existencial.
Esse mosaico chamado Gonzaguinha também ganha contornos através da dramatização de entrevistas concedidas ao O Pasquim, jornal que foi um dos marcos da resistência à ditadura militar no Brasil. O cantor ganha vida diante das câmeras graças à interpretação de André Dale, que demonstra confiança e sensibilidade para encarnar uma figura de nuances gestuais e comportamentais indeléveis em sua peculiaridade. A recriação desses momentos até pode soar estranha de início, mas à medida que a narrativa avança, percebe-se o quão é útil para tensionar aspectos mais espinhosos relacionados à trajetória pessoal e profissional do entrevistado. A despeito dessa exitosa inserção, há de se convir que tal recurso narrativo não assume uma condição de imprescindibilidade, de modo que sua ausência não traria prejuízos à obra.
É óbvio que a música haveria de ocupar um lugar central numa cinebiografia como esta; engana-se, porém, quem pensa que isso é feito de qualquer jeito, com fins meramente instrumentais e objetivando fisgar o espectador pela lembrança nostálgica. As canções de Gonzaguinha são postas de maneira orgânica, quase como que obedecendo a um ritual de dissecação anatômica do estilo de seu autor, ajudando a revelar, assim, o passado, o presente e o devir de sua arte. A decisão de expor imagens atuais de pessoas comuns, em paralelo com as músicas (e suas letras escritas na tela), acaba por reforçar o sentimento de permanência, no presente, de muitas das questões que assolavam o Brasil no passado.
O fato de Gonzaguinha continuar a falar aos nossos corações evidencia não apenas a pujança lírica de suas composições, mas, também, a ligação espiritual das mesmas com a ideia do que é ser brasileiro e viver neste país, bonito e inspirador por natureza e de gritantes contradições sociais. O grande êxito de Gonzaguinha, Da Maior Liberdade é apresentar o seu protagonista como essa pessoa capaz de reunir se não todas, mas uma parcela representativa dessas facetas que compõem a nossa sociedade. Em momento algum Gonzaguinha é mostrado de maneira simplória nem simplificada, e muito menos busca-se apresentá-lo seguindo o caminho mais fácil (e talvez rentável, se pensarmos em cinebiografias que almejam tão somente números vultosos de bilheteria). Susanna Lira entrega, portanto, um trabalho maduro, consciente e respeitoso, daqueles que têm tudo para se manter como referência no âmbito das cinebiografias documentais nacionais.
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Filme: Gonzaguinha, Da Maior Liberdade Elenco: André Dale, Ernesto Leão e Gedivan de Albuquerque Direção: Susanna Lira Roteiro: Rodrigo Alzuguir País: Brasil Ano: 2026 Gênero: Documentário Sinopse: Gonzaguinha, Da Maior Liberdade é um filme que busca resgatar em letras, imagens e sons a fúria e a poesia de um dos artistas mais importantes para a construção e a discussão popular de nossa história democrática: Luiz Gonzaga Jr. Classificação: 12 anos Distribuidor: Synapse Distribution Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |

