Que estamos vivendo numa era onde o conservadorismo se faz cada vez mais presente em todos os âmbitos, expelindo os seus tentáculos em diversas formas de expressão, não é novidade. Já se introduzindo com a música gospel “Mulher Virtuosa”, o primeiro longa-metragem da diretora catarinense Cíntia Domit Bittar vem para destrinchar como esse movimento ultraconservador vem se articulando como uma verdadeira seita no seio do universo feminino, numa trama que embala terror social/psicológico, enquanto nos diverte e, ao mesmo tempo, nos assusta.
Nos diverte porque há um humor ácido e esperto em Virtuosas; em gestos, reações, e em muitos diálogos absurdos. É como se nós, como seres lúcidos, estivéssemos sorrateiramente espionando aquelas mulheres através de uma janela daquela belíssima casa isolada – há um senso de intimidade e sobretudo de enclausuramento em acompanhar aquela rotina soçobrada em pragmatismo, regras e automatização do que seria o ideal perfeito de “papel feminino”, e nos assusta pelo fato de não ser uma alegoria distópica: é algo que já está acontecendo.
Aquela espécie de retiro VIP em que Virgínia (interpretada de maneira exímia pela atriz Bruna Linzmeyer) proporciona às suas ‘seguidoras’, com o intuito de ensinar comportamentos tradicionais para que elas consigam atingir a sua melhor versão pode soar como algo absurdo, mas quando vemos que muitos influenciadores oferecem cursos com essa mesma proposta na vida real, é onde o filme consegue articular o absurdo da ficção e transpor à realidade, ainda que opte por certos exageros que servem para enfatizar esse contrassenso. É notório que o intuito não é zombar da fé alheia, mas sim dos ‘poderosos’ que se utilizam dela para manipular narrativas em benefício próprio.
O roteiro de Bittar é bem claro no que mira em criticar, e ela consegue ter tato para não fazer o tom satírico descambar numa mera caricatura barata. Há embasamento empírico, e uma clara inspiração em figuras públicas reais, sejam elas influenciadoras ou do meio político (da direita); basta dar uma scrollada num feed de alguma rede social que, querendo ou não, está praticamente impossível não se deparar, ainda que sem querer, com conteúdos de tradwives e coaches de feminilidade, falando sobre papéis de gênero, sempre usando a religião como ponte para fazer a tal “lavagem cerebral”.
A sensação de que toda aquela disciplina artificial irá culminar em algo ruim é constante. O filme consegue articular muito bem essa atmosfera sombria em meio a uma busca por longanimidade que mais parece uma bomba escondida, prestes a explodir. Gradativamente, aquele jogo de performances vai escancarando hipocrisias, segredos e intenções que vão muito além do superficial. A personagem Lorena (interpretada pela Juliana Lourenção) é um contraponto importante, por ser a que menos consegue esconder o quão suas emoções reais estão à flor da pele… ser mãe pode ser uma bênção e também um fardo, afinal.
Uma das coisas mais interessantes que o filme consegue elucidar é que, embora cada uma daquelas personagens tenha suas peculiaridades e diferentes modos de reagir a certas situações, todas elas são curiosamente parecidas quando o assunto é performar uma doçura e feminilidade incessantes. Há uma homogeneização das personalidades, como se a meta ideal da anfitriã ao proporcionar aquelas “aulas imersivas” fosse transformar a personalidade de cada uma delas numa unidade, anulando a graça da individualidade; tendo, com isso, inúmero interesses, sobretudo políticos Uma coisa meio 1984 – ou, ainda mais condizente: uma coisa meio O Conto da Aia.
O verdadeiro terror que o filme evoca é justamente essa proximidade com a nossa atual realidade, o que é preocupante, já que a forma como a ideia geral é desenvolvida mais remete a uma distopia ou uma sátira – e, de fato, trata-se sim de uma sátira, o que não suaviza o ar macabro que toda aquela prática emana. É difícil não nos remeter ao filme The Stepford Wives (1975), que também retrata essa violência velada – que é paradoxalmente gritante – de opressão constante, fomentada entre mulheres, para mulheres, numa escola de submissão que se retroalimenta entre nós mesmas.
O filme só derrapa pela repetição de certas ideias que são reforçadas a todo o tempo, o que deixa um ar desnecessariamente expositivo. Às vezes, uma subjetividade, algumas nuances e jogadas mais implícitas são bem-vindas, e podem enriquecer ainda mais o texto. Entre inúmeras cenas de orações, citações bíblicas e outras frases clichês que são comuns nessa bolha, quase faz o teor satírico sugar a seriedade da crítica. Também há um arco narrativo sobre uma questão mística, envolvendo uma bruxa e outras crendices que quase destoa do que estava sendo apresentado por parecer algo um tanto “viajado”, mas felizmente acaba se justificando pela coesão que leva ao desfecho – além de ser até cômico acompanhar tamanha alienação.
Virtuosas é um filme que consegue beber de várias inspirações sem perder sua própria autenticidade narrativa. Passeia perfeitamente pelo terror psicológico e pelo teor satírico como meio para escancarar essa faceta de uma hipocrisia internalizada, de fundamentalismo comportamental disfarçado de “mudança de vida”. Polêmico desde a divulgação do trailer, pode e vai incomodar muita gente pela ferida em que tem a coragem de cutucar, mas é certo que, nesses tempos sombrios em que vivemos, essa ousadia na arte do cinema pode ter uma contribuição imensamente relevante para abrir os olhos em relação a muito absurdo que vem sendo normalizado. O final é ousado e impactante; como deveria ser.
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Filme: Virtuosas Elenco: Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta, Brisa Marques, Gabriel Godoy, Fernando Bispo, Nenê Borges Direção: Cíntia Domit Bittar Roteiro: Cíntia Domit Bittar, Fernanda De Capua País: Brasil Ano: 2025 Gênero: Drama, Suspense, Terror Sinopse: Um retiro VIP para mulheres em busca de sua melhor versão se transforma em uma jornada absurda e perigosa. Classificação: 16 anos Distribuidor: Filmes do Estação, Olhar Filmes Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |

