CRÍTICA – CARA-DE-BARRO

CRÍTICA – CARA-DE-BARRO

No trailer de Cara-de-Barro (2026), de James Watkins, há trechos de uma cena muito emblemática do filme, uma que se passa dentro de um avião. Neles, entende-se que o protagonista Matt Hagen, interpretado por Tom Rhys Harries, percebe que seu rosto está derretendo. Rapidamente, corre até o banheiro e, ao se olhar no espelho, vê que suas pálpebras estão grudando. Ele, então, tenta cortar essa junção de pele com uma tesoura enquanto uma aeromoça tenta tirá-lo de lá, porque, é claro, a aeronave está passando por uma turbulência. Essa set piece é carregada de tensão e provoca aquelas repulsas típicas de filmes de horror corporal. Nesse âmbito, o filme é ótimo e entretém, sem dúvida, mas essa cena é ainda mais impactante pelo excelente trabalho psicológico dedicado ao personagem. Em vez de cair em uma exibição barata de cenas violentas, o filme alia as transformações grotescas de Hagen à espiral de autodestruição e de despersonalização que ele vive, e essa abordagem complexa de sua psique é o grande trunfo aqui.

Antes do segmento elogioso da crítica, vou tratar logo da principal questão que tive com o filme, que é praticamente todo o início. Nas primeiras cenas do filme, são feitos muitos acenos às principais características do personagem, os quais, de início, são divertidos, mas se tornam redundantes pela repetição incessante. Refiro-me a momentos como a massagem facial que Hagen recebe no camarim; a entrevista em que o apresentador elogia a capacidade do ator de ter múltiplas facetas; e as várias outras menções de seu rosto, elogiado por todos ao redor. Evidentemente, esses exemplos têm uma função de foreshadowing, mas são elaborados descaradamente. Não é necessariamente um demérito, pois o longa explora sem pudores os símbolos que propõe; a questão é a quantidade gritante de diálogos muito similares nessas primeiras sequências. Ainda que um espectador não tenha conhecimento prévio do personagem, o mero título do filme pode condicionar o modo de assistir a essas cenas, de tal forma que esses sinais, repetidos à exaustão, passam a explicitar a estrutura narrativa.

É claro que, no contexto dos acontecimentos da trama, é possível, certamente, se compadecer da violência que Hagen sofre pelas mãos do mafioso Markos Zabo, interpretado por David Dencik. Após flertar com Theresa, interpretada por Ruby Sear, em uma balada e ignorar o aviso de seu amigo Corey Bowery, interpretado por Joshua James, de que essa mulher se relaciona com Zabo, Hagen acorda no dia seguinte rodeado pelo sujeito e por seus capangas. Sem piedade, o criminoso desfigura o rosto do ator com uma navalha, em uma cena que explicita toda a violência de forma gráfica. Além do mais, Theresa acusa Hagen de dopá-la para ter relações sexuais com ela, e Hagen vê sua reputação, sua profissão e seu dinheiro irem por água abaixo. Do ponto de vista do desenvolvimento de personagem, tudo isso é efetivo, mas, até o momento, a concatenação das cenas é tão explicitamente contextual que esse ponto de virada ainda é só mais uma viga exposta na construção geral do filme.

As qualidades formais do filme, que, por sua vez, poderiam balancear esse problema, não se destacam muito. Nesse sentido, percebe-se uma tentativa de emular o tratamento visual de Batman (2022), de Matt Reeves, ou de Pinguim (2024), de Lauren LeFranc, em alguns momentos. Por um lado, o diretor de fotografia Rob Hardy, apesar de ser competente, não chega a ter a mesma finesse da fotografia de Greg Fraser, e isso se percebe, principalmente, nas cenas à luz do dia, acinzentadas e com pouco contraste. Por outro lado, nas cenas noturnas, notam-se planos mais bem polidos, muito por conta do aproveitamento das muitas luzes, as mais regulares, como as alaranjadas que modelam as vielas de Gotham City, e as mais coloridas, como as das cenas em boates. Quanto à direção de James Watkins, não me parece haver criatividade extraordinária; o filme parece pôr todas as fichas na presença do ator e nos efeitos visuais de suas transformações, mas falarei disso logo mais.

Seguindo em frente, é preciso fazer um adendo sobre o tratamento experimental realizado por Caitlyn Corr, interpretada por Naomi Ackie, que consiste em células de IA que reconstroem o corpo de dentro para fora. Esse segmento do filme é bastante direto ao ponto, até bastante genérico (seria a IA a nova nanotecnologia nos filmes de quadrinhos?) e inverossímil, ainda que isso seja de praxe em filmes de super-heróis. Veja-se, ou o filme quer que eu aceite que Corr, supostamente uma pesquisadora de renome, acredita que, mesmo obtendo resultados com o experimento ilegal, sua vida não será um inferno caso isso seja descoberto, ou que ela não se importa com nada disso. Além disso, a montagem de toda essa primeira parte é muito acelerada, como se o filme quisesse chegar logo naquilo que mais lhe interessa. Certamente, essa transparência da ordem do filme pode ser vista como influência da escola hollywoodiana de roteiros de cenas úteis, mas aqui a objetividade está a um tropeço da mecanização, que pode atravancar um possível interesse profundo e genuíno da trama.

Apesar disso, é só quando, finalmente, Hagen consegue bons resultados no tratamento que o filme mostra a que veio. Com seu rosto restaurado após algumas sessões, Hagen celebra com Corr e diz que irá ao tapete vermelho de um lançamento em que foi substituído por outro ator, para mostrar o que perderam. Corr tenta dissuadi-lo disso e lhe diz o ditado: “A melhor vingança é uma vida bem vivida”. Bem, é óbvio que ele não seguirá o conselho e, então, vai ao evento. Hagen faz sua aparição como uma verdadeira estrela, rouba a cena e ainda aproveita para tirar uma foto ao lado dos atores principais, tudo isso ao som de Beggin’, da banda Måneskin. Um show de ego e de vaidade, o retorno glorioso do injustiçado. Ele vai, inclusive, até a produtora que o trocou, para desdenhá-la. Rapidamente, a discussão se intensifica, até que a executiva se detém e percebe que o lado direito do rosto de Hagen começa a derreter. A trilha orquestral de Volker Bertelmann se intensifica e até parece trazer um eco da descendência melódica do refrão de Beggin’, e, desesperado, Hagen sai correndo e vai até a clínica de Corr. A cientista quer estabilizá-lo com doses baixas, mas Hagen insere todas as células de IA em seu corpo – o estrago está feito.

A partir desse momento, o filme passa a lidar, de maneira brilhante, com sua jornada de autodestruição e de despersonalização. A raiva de Hagen e o desejo de vingança desestabilizam as células de IA e, assim, não só deformam seu corpo, em vez de mantê-lo íntegro, como também rompem com sua noção de identidade; ele passa a ser incapaz de se reconhecer. Desse modo, alguns de seus diálogos com Corr se aproximam de sessões de psicoterapia, e algumas das formas que Hagen assume são símbolos dessa monstruosidade que ele vem nutrindo, como uma figura zumbificada ou simplesmente uma massa disforme. Aos poucos, essas formas vão ficando mais grotescas, suas ações, mais violentas, e sua contraparte humana vai ficando cada vez mais deprimente. Para quem já teve a oportunidade de ter acompanhamento psicológico, um dos exercícios fundamentais é o de se atentar àquilo que tem poder de destruir alguém mental e emocionalmente, bem como o de aprender a lidar com isso. Caso contrário, com uma mente adoecida, o corpo adoece das formas mais inesperadas: um joelho que estala, um músculo que tensiona, uma mão que treme – aqui, um rosto que derrete.

O grande destaque de Cara-de-Barro é a densidade psicológica incomum somada à ótima interpretação de Tom Rhys Harries. Por se tratar de um personagem volátil, é impressionante que Harries tenha sido capaz de ir a extremos opostos de intensidades sem que isso fique aleatório. Na realidade, desde o início do filme é possível reparar nessa gama de expressividades. Nos bastidores, é divertido e piadista; quando acompanha sua indicação ao Oscar na televisão, é sério e levemente indiferente; quando se isola para chorar de felicidade, é sensível e nostálgico, pois se lembra da mãe. Em seguida, quando começa a ser dominado por seus impulsos violentos, essa gama passa a incluir expressões de ódio, soberba, decepção. Os efeitos visuais só intensificam essas facetas, até culminar na sequência final, anterior ao epílogo, que é belíssima. A monstruosidade que surge é trágica porque exibe todas as suas dores ao mesmo tempo, e não é meramente vilanesca, pois exibe medo e arrependimento. Essa imagem é o retrato de seu declínio emocional e moral; cumpre mais do que a expectativa de ver a transformação definitiva do personagem. Cara-de-Barro consegue, no fim das contas, aliar as convenções do cinema de super-heróis às do cinema de horror e com a complexidade que se espera de um filme com tanto potencial simbólico.


Filme: Clayface (Cara-de-Barro)
Elenco: Tom Rhys Harries, Naomie Ackie, Eddie Marsan, Joana Ribeiro, Max Minghella, David Dencik, Joshua James
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan, Hossein Amini
País: Estados Unidos
Ano: 2026
Gênero: Suspense, Terror, Ficção Científica
Sinopse: Matt Hagen é um jovem de Gotham cuja rápida ascensão como astro de Hollywood é interrompida quando um criminoso o deixa gravemente desfigurado. Abandonado e desesperado, ele procura um tratamento experimental capaz de restaurar sua aparência. O procedimento funciona, mas provoca consequências inesperadas que afetam sua percepção da realidade e o conduzem por um caminho destrutivo de vingança.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Warner Bros. Pictures Brasil
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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