27º FESTIVAL DO RIO – APOLO

27º FESTIVAL DO RIO – APOLO

Há algo de profundamente subversivo na simplicidade. Em um país onde a existência trans é tantas vezes tratada como uma aberração ou uma pauta, Apolo surge como um respiro: um documentário que não se esforça para explicar nada e é justamente por isso que explica tudo.

Dirigido pela atriz Tainá Müller e a multiartista Isis Broken, estreantes na direção, o filme acompanha a história de Isis e Lourenzo, um casal trans que, durante a pandemia, concebeu naturalmente o filho Apolo. A narrativa se estende do início da gestação até o nascimento, acompanhando as transformações do corpo, do cotidiano, das dificuldades e, principalmente, do afeto. É um filme sobre um casal, um filho e um país inteiro que ainda precisa aprender a lidar com o amor.

Mas o gesto mais bonito do filme está no que ele não faz: Apolo não é uma tentativa de explicar o que é ser trans. Não é um manual sobre gênero, nem um panfleto sobre representatividade. É um retrato de intimidade de um casal que cozinha junto, conversa com a família, enfrenta o medo da violência, ri, chora, ama. O que se vê é a naturalidade que o olhar cis costuma roubar das narrativas trans.

O filme se desenha com uma estética de delicadeza e despojamento. As diretoras não constroem a emoção pela manipulação das imagens, mas pela confiança nelas. Há planos longos, pausas, olhares que duram mais do que o necessário. Um respeito pelo tempo do corpo e da respiração. Essa escolha revela não apenas uma ética, mas uma estética: filmar o amor como quem segura um bebê, com cuidado, com atenção e com o medo de que qualquer movimento brusco quebre algo precioso.

Há uma ternura documental que eleva o cotidiano à condição de manifesto. O gesto político se dá na repetição daquilo que parece banal: preparar o enxoval, enfrentar um pré-natal, atravessar uma cidade. No Brasil, o banal se torna revolucionário quando envolve corpos dissidentes. E está longe de ser banal, já que as dificuldades aumentam muito mais para pessoas trans. Afinal, estamos falando de um Brasil que é o país que mais mata a população transgênera no mundo.

O título, Apolo, é luminoso e simbólico. Apolo é o deus do sol, o que ilumina, o que aquece, e o menino Apolo é esse feixe de luz que nasce de um amor improvável aos olhos de uma sociedade que insiste em definir o que é “natural”. O filme brinca com essa ideia da luz: há um jogo de claridade e sombra, de corpos em contraluz, de cenas que parecem habitadas por uma espécie de sol interno. Apolo é o nome de uma criança, mas também de uma esperança.

Em um dos momentos mais fortes do filme, Isis Broken diz: “Eu não nasci no corpo errado, eu nasci no corpo certo.” Essa frase reverbera. É um deslocamento do discurso normativo que insiste em patologizar a experiência trans. O corpo, para Isis, é território de verdade, não de erro. E o filme se constrói a partir dessa certeza: o corpo é casa, o corpo é gesto, o corpo é futuro.

O filme também mostra o quanto o preconceito pode se infiltrar nos espaços mais triviais: a dificuldade de um homem trans realizar o pré-natal, o olhar torto no hospital, a desconfiança do motorista de aplicativo. Mas Apolo nunca transforma essas situações em espetáculo da dor. O tom é outro, é o de quem enfrenta a violência com dignidade e continua acreditando na delicadeza como força.

Ao final da sessão de estreia no Festival do Rio, no dia 4 de outubro, em que o filme participa da Mostra de Documentários da Première Brasil, conversei com as diretoras, ainda tomadas pela emoção de ver o filme diante do público pela primeira vez.

Tainá Müller me disse:

“Eu estou muito feliz que as pessoas saíram muito emocionadas do filme, mas principalmente o Apolinho! Disse que gostou do filme, se emocionou também. Eu acho que as pessoas têm me falado isso que você acabou de falar: ‘quero trazer minha avó, minha tia, meu pai, minha mãe’. A gente fez o filme pra isso. Nunca quisemos fazer um filme pra um nicho, limitar pra um tipo de pessoa. Não, é pra todo mundo mesmo. É um filme para a família brasileira. Sobre uma família brasileira e para a família brasileira.”

Isis Broken completou:

“O mais engraçado de tudo é que emocionou pessoas cisgênero e pessoas trans. A minha amiga saiu da sala aos prantos, porque o filme também tem esse lugar de se identificar. Se você é cis ou se você é trans, você vai se identificar, independente. É pra todos os tipos de pessoas, porque é literalmente uma história de amor e de família. O fruto de um amor.”

Essas falas traduzem o coração do filme. Apolo é uma obra sobre o amor em sua forma mais elementar: o amor como cuidado, como partilha, como presença. A imagem final, quando Apolo surge na frente da câmera e gentilmente cumprimenta o espectador, tem algo de milagre e cotidiano ao mesmo tempo. Não é o “milagre” de um corpo trans gerar vida, mas é o milagre simples de qualquer criança dando um sorriso gostoso, em qualquer família.

Talvez o gesto mais bonito do filme seja justamente esse de tirar a transgeneridade do lugar do espanto e devolvê-la ao lugar da vida. Porque, no fim das contas, o que Apolo faz é nos lembrar que amor e existência são sinônimos, e que toda luz, mesmo pequena, é capaz de atravessar a escuridão.

Apolo estreia nos cinemas brasileiros no dia 27 de outubro. E deveria ser assistido por todos que ainda acreditam que a ternura é uma forma de resistência.

Pôster do filme Apolo. Filme: Apolo
Elenco: Isis Broken, Lourenzo Duvale, Apolo Duvale
Direção: Tainá Müller, Isis Broken
Roteiro: Tainá Müller, Isis Broken, Lourenzo Duvale, Tatiana Lohmann
Produção: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Documentário
Sinopse: Após conceber naturalmente um filho durante a pandemia de COVID-19, Isis e Lourenzo iniciam uma jornada pelo Brasil em busca de algo incomum: um pré-natal respeitoso e especializado. Ao mesmo tempo, seguem na luta diária, dentro e fora de casa, pelos direitos de sua família no país que mais mata pessoas trans no mundo.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Biônica Filmes
Streaming: Não disponível
Nota: 9,0

 

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