CRÍTICA – BOUCHRA (15º OLHAR DE CINEMA)

CRÍTICA – BOUCHRA (15º OLHAR DE CINEMA)

Meu último texto aqui foi sobre o longa nacional dirigido por Rafhael Barbosa, Olhe Para Mim (Crítica aqui), no qual o drama queer se desenvolvia através de vários símbolos e a explicação para tudo o que acontecia em tela não fazia parte da proposta do filme. Bouchra, animação para adultos dirigida pela dupla Meriem Bennani e Orian Barki, parte de uma premissa bem mais direta. Com direito ao uso da metalinguagem, Bouchra é um filme sobre um filme que trata da relação de mãe e filha, em um claro reflexo da relação entra a jovem coiote marroquina, Bouchra, estabelecida na cidade de Nova York, e sua mãe, Aicha, que ainda reside em Casablanca, Marrocos.

Esta relação é sempre muito limitada a poucas palavras e à superficialidade da vida de cada uma. Há uma espécie de barreira que Bouchra, por vezes, tenta transpor, ao passo que sua mãe cria sempre alguma resistência. Além dessa relação fraturada e desse trabalho pessoal cheio de significados para ela, vemos também Bouchra se relacionando com a cidade de Nova York e outros bichos. Mas é quando surge a personagem Nikki que descobrimos mais sobre a sexualidade da protagonista. É a partir desse ponto que percebemos o porquê do conceito para adultos. As diretoras aqui não se furtam de inserir o toque, o beijo e todo o tipo de carícia que se possa imaginar. É uma verdadeira subversão ao cinema de animação ocidental, sobretudo pelo uso de personagens animais antropomórficos nesse contexto fílmico. Mas não só pelas cenas intimas, como também pela composição da animação em si.

Ora há uma busca por um tom mais realístico, principalmente quando utiliza, em alguns momentos, cenários da cidade real com carros em movimentos, ou até mesmo quando um close nos olhos da coiote traz um brilho e os vasos sanguíneos em evidencia, ora foge totalmente ao real, sobretudo nos movimentos pouco harmônicos dos personagens. Mas é dentro dessa ideia de dar um tom real à obra que entra o uso da metalinguagem. Ao lembrar de suas histórias do passado, a protagonista vai montando um enorme storyboard, e uma das cenas mais marcantes é a lembrança de um de seus encontros com Lamia, uma ursa marroquina.

A relação de Bouchra com sua mãe é o grande foco da trama, e toda a história se movimenta por isso. Se por algum momento não entendemos o porquê de a relação das duas ter chegado a tal ponto, logo saberemos que essa explicação estará em uma carta que ela enviou para sua mãe e sobre a qual elas nunca falaram. O filme demonstra como relações, por mais fortes e sólidas que possam ser – como é o caso de uma relação de mãe e filha –, podem ruir pela intolerância e pelo preconceito.

Bouchra, a animação, propõe que as feridas sejam curadas e que o afeto fale mais alto. Para a protagonista, o sentimento em boa parte do filme é de ser incompleta e incompreendida. Por mais que esteja rodeada de boas amigas e de ter vivido boas histórias, a ausência e a indiferença que partem de sua mãe, a deixam triste. O ato de fazer um filme para tentar explicar a própria relação com a mãe acaba tocando nesse lugar de empatia, de se colocar no lugar do outro. E o desfecho não poderia ser diferente: uma cena dentro de outra cena e sua mãe, enfim, aceitando a filha do jeito que ela é.


Filme: Bouchra
Elenco: Meriem Bennani, Orian Barki, Fatim-Zahra Alami, Yto Barrada, Dounia Berrada, Ariana Faye Allensworth, Fayçal Azizi
Direção: Meriem Bennani, Orian Barki
Roteiro: Meriem Bennani, Orian Barki, Ayla Mrabet
Produção: Itália, Marrocos, Estados Unidos
Ano: 2025
Gênero: Drama (Animação)
Sinopse: Aos 35 anos, Bouchra é uma cineasta marroquina queer que vive no Brooklyn, em Nova York, paralisada pelo medo da página em branco enquanto tenta escrever seu primeiro filme autobiográfico. Diante do bloqueio criativo, ela inicia uma série de telefonemas profundos com sua mãe, uma cardiologista que reside em Casablanca, no Marrocos. À medida que segredos de família, traumas geracionais e as complexidades de sua identidade sexual ressurgem, essas conversas tornam-se o combustível para sua libertação artística.
Classificação: 18 anos
Distribuidor:
Streaming: Indisponível
Nota: 7,0

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