CRÍTICA – DIÁRIO DE UMA PAIXÃO

CRÍTICA – DIÁRIO DE UMA PAIXÃO

Eu sei bem que é quase um milagre. Sim, estou escrevendo sobre um dos romances mais clássicos do início da década de 2000, quase de maneira unânime considerado um dos epítomes do gênero no cinema. Aproveitem, pois não é todos os dias que isso ocorre – apesar que pretendo sair um pouco da zona de conforto e caminhar por um lado do cinema que eu produzi quase insubstanciais críticas sobre.  A única crítica até então de minha autoria que pertence ao gênero é “Ghost – Do Outro Lado da Vida (1990)”. Mas, o que me tirou da zona de conforto, vocês devem se perguntar queridos leitores…

Vez ou outra é um longa-metragem comentado nas gravações/lives do Club dos Quatro, e sempre com elogios seguidos da menção. Isso me puxou memórias de um João pequeno que assistia ao lado de sua mãe diversos títulos hoje considerados clássicos do gênero. Atiçou minha curiosidade de ter sensações diferentes em relação ao cinema (para quem é novo lendo esse texto, vá no meu histórico de críticas e você entenderá rapidamente) de romance, pois é um gênero que visito com certa raridade e revisito sempre a trilogia Before (1995-2014) do diretor Richard Linklater. Assim, foi construído um cenário que estabeleceu essa revisita. Bom… Já falei demais, vamos para o filme em si.

Um amor de verão. Uma clara divisão de classes. Um jogo de temporalidades. O pobretão espontâneo em sua simplicidade e a garota da cidade grande cheia de suas responsabilidades. O encontro teórico de opostos que desperta o que há de melhor no interior de cada um. Noah Jr. (Ryan Gosling) e Allie Hamilton (Rachel McAdams) são os protagonistas dessa relação melodramática. A primeira proposta interessante é a dupla temporalidade – presente e passado – em que Noah Jr envelhecido (James Garner) com um livro/diário em mãos lê a história escrita por Allie Hamilton, que também velha (Gena Rowlands) sofre de demência degenerativa, mais popularmente Alzheimer. Através dessa leitura Noah busca resgatar a Allie, visando um milagre de seu par romântico retornar a lucidez da antiga mulher que foi apaixonado por grande parcela de sua vida.

A narrativa, então, é essa transição entre o drama de um casal envelhecido e a força de vontade de Noah em estar ao lado de sua amada e a trajetória para a consolidação desse casal. Aproveitando dessa mesma divisão entre passado e presente narrativo, façamos uma análise que transite da mesma forma.

No recorte narrativo do passado, é o mais clichê romance possível. Dois jovens de classes sociais diferentes descobrindo belezas do mundo além da sua zona de conforto e conhecimento. É recheado de uma beleza nostálgica por aquele passado – década de 1940/1950 – jovens vivendo em uma realidade histórica romantizada, pois cria um cenário idealizado de uma cidade interiorana com uma vida rural cheia de suas belezas e contemplações. Daí advém o embalo e a imersão na narrativa desse romance, pois Ryan Gosling e Rachel McAdams (principalmente ela) possuem uma química que detém ritmo e encanto. A riqueza dos pequenos detalhes e a espontaneidade das situações, por mais idealizadas que são, estão longe do exagero e não quebram a verossimilhança de um amor construído pela espontaneidade testemunhada em cada um.

O roteiro sabe o que está fazendo – não li o livro na qual o filme é adaptado, de autoria de Nicholas Sparks – pois constrói uma série de simbolismos emocionais, afetos, significados de situações, gostos, amores específicos de cada um que são compartilhados durante o florescimento dessa relação e do sentimento. Não são gratuitos, pois serão resgatados ao longo de toda narrativa, para gerar um apego emocional ao público desses mesmos símbolos e reações de alegria e tristeza quando conflitos e soluções ocorrerem ao longo da narrativa. O exemplo a ser guardado aqui são os pássaros, em específico as gaivotas na beira-mar. Allie se vira para Noah e pergunta se é possível reencarnar na vida como pássaros e que esse era um sonho de infância. Noah se encanta, pois vê aquela jovem mulher antes em uma realidade totalmente controlada pelos anseios, vontades e expectativas dos pais abrindo seu coração para mostrar os mais delicados e pequenos detalhes. Ele memoriza isso, como também memoriza a promessa que eles fazem enquanto casal das expectativas de vida em torno de um velho casarão abandonado que Noah sempre sonhou em reconstruir desde criança também. É um filme minuciosamente construído e sabe muito bem o que está fazendo para embalar o público nos altos e baixos do drama desse romance.

O conflito nesse recorte do passado é a diferença de classes sociais, em que claramente Noah está longe de ser o par idealizado pelos pais de Allie. Ela é filha da elite. É a receita que já foi testemunhada dos mais clichês de romance e, deixo bem claro, todo clichê quando bem executado prova o porquê de os clichês existirem e como o simples bem-feito sempre funciona. Os pais de Allie não aprovam essa relação e, ainda detendo controle da realidade da própria filha, decidem antecipar o encerramento das férias de verão em uma semana, provocando o “término” abrupto do amor de veraneio entre Noah e Allie. Isso não apaga os sentimentos do casal, mas a mãe de Allie durante os próximos 365 dias esconde as cartas que Noah escreve diariamente. Allie segue sua vida, distanciando-se daquilo que é um “amor de verão” e Noah testemunha os horrores da guerra, depreciando-se em um isolamento e uma perca do fogo do viver, se tornando apático e representando isso ficando com a barba por fazer.

É lógico que entre esse intervalo de tempo, Allie encontraria outro par romântico que é Lon Hammond (James Marsden – ator campeão em seu currículo de nunca ser a primeira escolha nos romances que participou). Veterano da guerra, carismático, amável e rico… Tudo o que os pais de Allie desejavam como seu par ideal. Encontros e desencontros acontecem, com a fuga dela após ver um anúncio no jornal de que Noah havia reformado a casa, o reacendimento do amor de veraneio que no fim… Não é só um amor de verão.

Nesse segundo ato da narrativa – ainda no passado – existem belíssimos momentos, por exemplo a cena de Allie e Noah navegando em meio aos patos no rio, a chegada da chuva e a entrega ao calor e tesão de anos afastados. É o clímax dos símbolos e emoções, o escoamento dos vazios e o preenchimento do amor. O jogo de cores da fotografia, o encaixe da trilha sonora, planejados e estruturados para realçar esse reencontro de corações e corpos. Você torce pelo casal, fica engajado em ver ambos juntos pelo famoso “para sempre” tão idealizado, mas novamente mantendo os pés no chão para não fugir do plausível, transformando o romance em uma caricatura de si mesmo.

A chegada mãe de Allie, Anne (Joan Allen) e os próprios paralelos de seu passado, permitindo a filha ter a escolha que nunca lhe foi dada é intensa. E claro, pela própria situação do presente, sabemos com quem Allie decide permanecer e viver o resto de sua vida…

Encerrado o passado e chegando ao presente, é daí que advém a genialidade da narrativa. O casal de idosos carrega por completo o ápice do drama, pois acompanhamos os altos e baixos de sua vida para ficarem juntos e agora nos deparamos com uma Allie que esqueceu seu passado, sua família e o amor de sua vida. Os atores de Noah e Allie envelhecidos – James Garner e Gena Rowlands – brilham em conseguir capturar a empatia do público, construindo uma sensibilidade bem única e, com o aporte do roteiro que trabalha com delicadeza sobre a temática de um casal no fim da vida, após uma longa trajetória juntos. O mais inesperado durante essa revisitação foi justamente esse momento da narrativa, pois o tom melancólico me surpreendeu e agora relembrei o porquê chorei tanto quando era mais jovem assistindo ao longa-metragem pela primeira vez.

O que o torna tão belo – além é claro do resgate de elementos narrativos previamente colocados, como toda a simbologia dos pássaros – é a tragédia de um fim de ciclo. A vida se encerra, todos nós vamos morrer em algum momento e justamente por isso é maravilhoso, melancólico e uma mescla dual de leveza e peso. É difícil encarar a morte, mas que ela seja pacífica ao lado de alguém que você ama. Mesmo com o “milagre” de Allie retornar por alguns minutos com Noah, ela se perde nas memórias novamente. O sofrimento, o sacrifício de Noah para estar ao seu lado, pois seu lar é a onde seu amor está. Genuinamente emocionante em sua proposta, pois talvez eles tenham reencarnado em pássaros, continuando uma vida juntos em outro ciclo, em outra forma e momento. Da primeira vez as lágrimas foram de melancolia, não aceitação, negação. Hoje, digo que as lágrimas estão longe dessa mesma sensação, pois, são lágrimas de felicidade, de vida, de leveza, de contemplar um ciclo romântico que se manteve unido até o último respiro do viver…

O único defeito que consigo apontar do filme são algumas atuações e momentos que quase me tiraram da imersão narrativa. Por exemplo, a cena durante a Segunda Guerra Mundial, em que o melhor amigo de Noah, Fin (Kevin Connolly) que é muito mal executada e beira quase à uma comicidade pela falta de reação de Noah e a caricata expressão de Fin morto na neve.

Não é atoa que é considerado um dos grandes clássicos e vale a revisitação com total certeza ao longo dos anos. É um abraço confortável que eu não esperava reencontrar, apesar de triste e belo simultaneamente. Talvez seja daí sua genialidade e tamanha impressão que ainda gera nos públicos que se deparam com sua narrativa. Espero que tenhamos a sorte de Noah e Allie e encontremos também alguém pela qual passemos a vida amando todos os dias…


Filme: The Notebook (Diário de Uma Paixão)
Elenco: Rachel McAdams, Ryan Gosling, James Garner, Gena Rowlands, James Marsden, Joan Allen, Kevin Connolly, Sam Shepard, David Thornton
Direção: Nick Cassavetes
Roteiro: Nick Cassavetes, Jeremy Leven, Jan Sardi
ProduçãoEstados Unidos
Ano: 2004
Gênero: Drama, Romance
Sinopse: Em uma história sobre um amor perdido e reencontrado, duas pessoas comuns se tornam extraordinárias através da força, poder e beleza do amor verdadeiro.
Classificação: 14
Distribuidor: New Line Cinema
Streaming: HBO Max, Telecine, Prime Video
Nota: 9,5

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