CRÍTICA – MAXITA (15º OLHAR DE CINEMA)

CRÍTICA – MAXITA (15º OLHAR DE CINEMA)

O primeiro registro em movimento de um povo indígena brasileiro foi feito pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, em 1911, segundo pesquisa realizada pela UFRR (Universidade Federal de Roraima). Filmes como este – com o olhar de fora para dentro – se repetiram ao longo do século XX. Foi apenas em 1986, com a criação do projeto Video nas Aldeias (VNA), que passamos a ter realizadores pertencentes às aldeias. De lá para cá, mesmo com todas as dificuldades, sobretudo em investimento e aquisição de bons equipamentos, esse cinema tem se fortalecido. Para se ter uma ideia, em 2023, tivemos diversas críticas publicadas em nosso site sobre filmes indígenas, com destaque para um dos curtas exibidos no CineAlter de 2023: Uma Mulher Pensando, filme dirigido por Aida Harika Yanomami, Edmar Tokorino Yanomami e Roseane Yariana Yanomami.

Maxita é um filme com o olhar de dentro do povo Yanomami e sobre a preocupação que cerca todos os povos indígenas desse país: a existência. O filme aborda o constante avanço dos garimpeiros e empresas de extração dentro dos territórios indígenas e como essas expropriações ilegais, disfarçadas de busca pelo desenvolvimento e progresso, nada mais são do que geradoras de violência, sofrimento e morte.

As diretoras e primas Mariana Machado e Ana Maria Machado jogam o olhar da câmera em Davi Kopenawa Yanomami, xamã, escritor e uma das principais lideranças indígenas da atualidade. Este documentário de pouco mais de uma hora tem uma proposta muito clara: conseguir transpor para a tela a importância da persona de Davi Kopenawa, bem como intensificar o seu discurso de preocupação para com seu povo.

Despendendo um certo tempo para trabalhar com o diverso e variado vocabulário dos Yanomami – provavelmente é, também, um conhecimento adquirido por Ana Maria Machado que, para além de diretora, é indigenista e antropóloga –, o filme tenta esse estreitamento de laços entre os saberes e as diferentes culturas. Uma coisa é certa: os povos indígenas continuam correndo risco de vida. Uma coisa dita pelo próprio Davi Kopenawa e que chama a atenção é que muitos do seu povo são alheios a esta preocupação. O filme, então, parte dessa missão de registrar uma viagem desse líder a Minas Gerais para verificar o que sobrou de Brumadinho – que muitos chamam de tragédia, mas aqui dou o nome correto: crime.

Embora a temática do filme seja de extrema importância e urgência, vide o que aconteceu anos atrás com a crise sanitária que se estabeleceu na Terra Indígena Yanomami devido, principalmente, ao descaso do governo federal entre os anos de 2019 e 2022 e, pior, ao fortalecimento do garimpo ilegal por esse mesmo governo, o longa não consegue se aprofundar nem no discurso e nem mesmo na figura de Davi Kopenawa e no que ele representa para os Yanomami.

O convite a Ailton Krenak, inclusive, passa mais por uma ideia de necessidade de fortalecer um argumento tomando emprestado a sua imagem e o que ela representa, do que por uma verdadeira e genuína interação dentro da narrativa com a finalidade de conduzir o espectador – sobretudo o povo Yanomami, para quem este filme foi proposto – a um convencimento do que precisa ser feito e pelo que é preciso lutar. Maxita desperdiça uma excelente oportunidade com seu desenvolvimento rasteiro e pouco inspirado. E nem mesmo a presença de Ailton Krenak conseguiu mudar isso.


Filme: Maxita
Direção: Mariana Machado, Ana Maria Machado
Roteiro: Mariana Machado, Ana Maria Machado
Produção: Brasil
Ano: 2026
Gênero: Documentário
Sinopse: Davi Kopenawa, xamã yanomami e uma das principais vozes da defesa socioambiental do Brasil, enfrenta a iminente ameaça de grandes mineradoras em seu território na Amazônia. O filme registra sua travessia até Brumadinho, Minas Gerais, onde o líder indígena se depara com o rastro físico e social deixado pelo rompimento da barragem de mineração em 2019. Transitando entre o chão devastado e o plano espiritual, a jornada de Kopenawa cruza a cosmologia dos maxita watimapë — os “comedores de terra” — e promove um reencontro histórico com seu velho amigo e parceiro de lutas, Ailton Krenak.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Não informado
Streaming: Indisponível
Nota: 5,5

Sobre o Autor

Share

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *