Recentemente no Club dos Quatro, mais precisamente no episódio de número 26, o filme debatido foi Duas Garotas Românticas (1967), dirigido por Jacques Demy (Os Guarda-Chuvas do Amor). Nesta obra, as duas protagonistas, irmãs gêmeas, anseiam pelo grande e verdadeiro amor. Este musical de tom leve demonstra as personalidades diferentes das irmãs, embora perceba, também, que suas buscas, uma muito idealista enquanto a outra é mais realista, são justas e verdadeiras, mesmo em suas diferenças. É com esta mesma visão que Chloé Robichaud constrói seu novo filme, Entre Duas Mulheres (2025) — uma versão do filme Deux femmes en or, de 1970, no qual duas protagonistas, Violette (Laurence Leboeuf) e Florence (Karine Gonthier-Hyndman), são expostas com a mesma leveza e carinho com que Demy fez com Delphine (Catherine Deneuve) e Solange (Françoise Dorléac).
Entre Duas Mulheres, acima de tudo, trata da emancipação das mulheres, da busca pela liberdade feminina do sentir, do prazer e do viver. Violette é uma mulher casada que acabou de ter um bebê. Não sabemos se ainda se encontra no puerpério ou não, mas sentimos a sua solidão, uma vez que o seu marido, Benoit (Félix Moati), está sempre viajando a trabalho. E mesmo quando ele está em casa, a relação entre eles é fria; em uma cena, logo no início, Violette ficar enfurecida com os barulhos que ela supõe vir do apartamento de sua vizinha, acreditando que ela, sim, teria uma vida sexual ativa e seus supostos gemidos seriam, então, uma provocação. Mas não demora muito para que estas duas mulheres conversem e percebam que, na verdade, ambas, em momentos diferentes dos seus casamentos, passam pelo mesmo tipo de problema: são invisíveis aos olhos de seus parceiros.
Violette e Florence estão em momentos bem diferentes de suas vidas. Uma acabou de se tornar mãe, sua rotina, ao menos no início do filme, é ficar em casa, cuidar do bebê e tirar o leite através da bomba extratora. A outra está em uma relação mais longa, com um filho de 10 anos e vive dopada de antidepressivos. Isso mostra que a infelicidade pode bater à porta de qualquer um(a) e a qualquer momento.
A primeira parte do filme traz um ambiente gélido em alguma cidade do Canadá. E o clima serve, também, de metáfora para o momento em que as protagonistas vivem. Violette “abandonada” pelo marido e Florence dopada e invisível para o seu parceiro. Suas vidas amorosas e sexuais condizem com todo o gelo presente fora dos seus apartamentos. A medida que o tempo avança e que a primavera se aproxima, os primeiros raios de sol começam a entrar nos apartamentos e, com eles, prestadores de serviço, todos do sexo masculino e com os mais diversos perfis, passam a ser frequentemente convidados para a realização dos seus serviços, sendo pagos, inclusive, com bonificações.
Robichaud não está preocupada com discussões morais e puritanismo. Ela joga as cartas na mesa e explicita os desejos que qualquer ser humano tem. Desejos esses que, constantemente, são denunciados na mulher, sobretudo quando estas ultrapassam certa idade ou se tornam mães. Afinal, em uma sociedade patriarcal e machista como a nossa, só é aceito o desejo masculino, seja ele como for e com a idade que tiver. Em 2022, um filme bastante provocativo nesse sentido foi Boa Sorte, Leo Grande, dirigido por Sophie Hyde e protagonizado, brilhantemente, pela sexagenária Emma Thompson. Lá a personagem Susan Robinson (Thompson), depois de ficar viúva, vai atrás de outras experiências sexuais com um jovem garoto de programa uma vez que, em toda sua vida, apenas se relacionou com seu marido.
No caso de Entre Duas Mulheres, a diretora faz questão de mostrar os caminhos que cada personagem segue. O parceiro de Florence, Davi (Mani Soleymanlou), passa a tomar os antidepressivos que ela deixou de tomar, para assim, continuarem como estavam naquela relação sem libido. O marido da Violette, Benoit, continua com suas viagens, que são apenas pretextos para os encontros com sua amante Eli (Juliette Gariepy), mas cada vez mais é confrontado por Eli, e percebe que pouco sabe sobre a esposa. Não chega a ser uma grande mudança, mas algo que começa ali vai torna-lo um pouco mais presente em casa.
Aquela máxima que “a vida é feita de escolhas” pode ser verdadeira, mas às vezes sequer sabemos que estamos no momento de escolher. Essas duas mulheres, Violette e Florence, já possuem cargas demais em suas vidas e a elas, ainda, são atribuídas as responsabilidades pela felicidade e estabilidade de toda a família. Viviam em um estado de anestesia, apenas encarando um dia após o outro no automático e em total monotonia. E se o encontro inicial delas era para tratar sobre algo que desagradava Violette, isso se tornou, justamente, um momento de virada, no qual uma tratou de apoiar a outra por entender as dores pelas quais passavam.
As mulheres são colocadas sempre nesse lugar do zelo pelo lar, pelos filhos e pelos maridos. Tornam-se verdadeiras mães para estes homens. E, ao falharem nessa missão cruel, se culpam, se cobram e se anulam. O filme dá uma resposta bem-humorada a essa dissonância social. Discute as formas de amar, reflete sobre essa perfeição cobrada das mulheres, dialoga com a maternidade e defende acima de tudo os desejos, o querer amar e ser amada. Entre Duas Mulheres é um manifesto em defesa da mulher.
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Filme: Deux femmes en or (Entre Duas Mulheres) Elenco: Karine Gonthier-Hyndman, Laurence Leboeuf, Félix Moati, Mani Soleymanlou, Sophie Nélisse, Juliette Gariépy Direção: Chloé Robichaud Roteiro: Catherine Léger Produção: Canadá Ano: 2025 Gênero: Comédia Sinopse: Violette está atravessando uma licença-maternidade difícil. Florence enfrenta uma depressão que insiste em não passar. Mesmo com carreiras bem-sucedidas e famílias aparentemente estruturadas, ambas carregam a sensação sufocante de fracasso. Mas e se a felicidade estiver justamente em romper com as expectativas? Em um mundo onde se divertir raramente é prioridade, viver uma aventura com o entregador pode ser um ato de resistência. Para as vizinhas Violette e Florence, é o sopro de ar fresco que elas tanto esperavam. Classificação: 16 anos Distribuidor: Imovision Streaming: Indisponível Nota: 7,8 |

