Se surpreender positivamente não é mais uma constante no cinema, ainda mais quando é sobre adaptações de obras tão específicas com conteúdos no mínimo problemáticos, tais quais os títulos em quadrinho Crossed, criados por Garth Ennis (Preacher, The Boys, Hellblazer, Punisher). A violência extrema de sua obra é participante do subgênero informal denominado como SplatterPunk (Hellraiser é um dos maiores representantes) e, com as outras publicações de autores que agregaram ao universo de Crossed, as fronteiras da “violência” e do absurdismo são exploradas com exímio, exigindo estômago, dureza e perseverança dos leitores que ousam testemunhar todas as loucuras que as narrativas desse universo propõem.
Uma adaptação nas telonas fidedigna ao conteúdo é uma possibilidade quase impossível, mas não inviável, porém adentraria nas listas de filmes polêmicos, ou das famosas “Os 10 filmes mais violentos que você PRECISA assistir!”. Não achei que chegaria em algum momento a me deparar com qualquer coisa que remetesse a Crossed, mas o cinema de Taiwan impressiona ousando materializar uma narrativa que por mais que o diretor diga que se “inspirou”, fica óbvio que é possível ler o filme como uma adaptação do “surto” infeccioso no oriente. Só faltaram as “cruzes” nos rostos dos infectados, mas entra-se na questão de adquirir direitos autorais e toda uma expectativa do público com adaptar as histórias originais dos quadrinhos.
Kat (Regina Lei) e Jim (Berant Zhu) nossos protagonistas são um casal comum em sua rotina de trabalho, nossos sobreviventes durante o surto epidêmico. São poucos os detalhes agregados em suas personalidades, vontades ou sonhos, o filme não — alguns podem discordar — perde tempo em fazer um aprofundamento absurdo em suas personagens, é direto ao ponto: sobreviver em meio à toda desgraça que irão experienciar. O “vilão” ou infectado de maior destaque é o Business Men (Tzu-Chiang Wang) que irá atormentar Kat em uma perseguição maluca procurando possui-la das várias maneiras escrotas e violentas que possamos imaginar.
É colocado todo um panorama para o ocorrido do surto epidêmico, principalmente de uma sociedade que se nega a acreditar nos cientistas alertando sobre o potencial de mutação do vírus. As pessoas tratam como uma “gripe” e associam todas as informações e desinformações com um cenário político polarizado em que tudo é transformado em discurso eleitoreiro, afinal, é um ano de eleições na narrativa. É cômico até ver o diretor comentar nos bastidores que ele teve que criar esse cenário ficcional em Taiwan, inspirando-se abertamente nos negacionismos presentes em seu país natal: Estados Unidos — e elogiando, aliás, como Taiwan atuou durante o surto global de Covid-19, em 2020. A mutação tão alertada ocorre e, em questão de poucos minutos/horas, a sociedade taiwanesa colapsa por completo.
O que, então, A Tristeza vem a “inovar” no gênero de zumbis tão amplamente explorado? Com tantas convenções e regras que já foram reforçadas ou descontruídas constantemente ao longo dos anos, é difícil imaginar por onde ir. Eis, então, a relevância de sua fonte de inspiração, pois Crossed carrega a mesma ousadia que o filme busca colocar em sua narrativa e faz isso muitíssimo bem. É abraçar a loucura da ultraviolência, promovendo um espetáculo que somente os cinemas orientais conseguem trazer.
Há um crescendo ousado e substancial no que o roteiro se propõe, não refreando em nenhum singelo segundo no que tange o sadismo presente dos infectados que são quase tão criativos quanto os dos quadrinhos. Não faltam cenas de impacto. Para aqueles que já são fissurados na cinematografia do gore , tem pouca coisa para nos deixar verdadeiramente desconfortáveis (nisso, o filme argentino When Evil Lurks ou O Mal que nos Habita de 2023, dirigido por Demián Rugna é bem mais expositivo; afinal, nem as crianças estão seguras e o público vê a violência direta); digo isso porque quando envolve qualquer violência que extrapole as figuras adultas, elas ocorrem fora de tela em grande parcela ou é sugerida com alguém testemunhando o resultado final de algo aterrorizante ocorrido previamente. Outra ousadia é manter um diálogo extremamente brutal, beirando ao caricato de ofensas e projeções do que os infectados anseiam por fazer com os outros indivíduos — uma fidedignidade ao comportamento deles nos quadrinhos de Crossed — e é talvez aqui o ponto mais delicado em que o filme transpassa as barreiras do que grande parte do público pode considerar aceitável. A violência e o sexo para os infectados estão diretamente correlacionados, transformando-os em figuras assustadoras por prolongarem a morte de suas vítimas se divertindo entre si, buscando prazer naquilo que é provocado ao corpo. Então, ative o lado da sua imaginação maligna que o mínimo que você testemunhará são cadáveres sendo violados, infectados se torturando para depois copularem e, até mesmo, uma suruba entre sangue, tripas e pedaços humanos acontece.
Eis aqui um elogio para uma cena específica. Uma interação entre o Business Men e Molly (Ying-Ru Chen). Não adentrarei na zona de spoilers. O que sugiro é que para qualquer entusiasta da violência nas telonas, essa cena em específico me fez arregalar os olhos e assistir boquiaberto tamanha brutalidade. Uma cena que entra junto de outros filmes com momentos perturbadores para levar na memória e, também, por conta de isso pensar minuciosamente se vale a pena assistir esse filme com outro indivíduo. Talvez somente o elemento da redundância me ajude a qualificar esse take: violentamente violento. Para aqueles menos preparados ou sensíveis, talvez se torne um trauma cinematográfico caso você tenha aguentado o filme até esse determinado evento. Um trauma que pode muito bem causar os mais variados gatilhos.
Aproveito para elogiar a atuação de Tzu-Chiang que traz vida ao infectado Business Men, destacando-se em uma incorporação insana, desumanizada e com um ímpar sadismo que impregna na memória. É a melhor atuação de todo o elenco — que é bem indiferente em sua qualidade; mediano para menos em outras personagens, principalmente dos sobreviventes. Um antagonista de respeito pois seu sadismo funciona tal qual um filme queimado, adentrando no inconsciente e deixando seu trauma infectado no cérebro do público.
Outro aspecto de muitos elogios são os efeitos práticos predominantes em tudo que envolve a caracterização dos infectados e todos os aparatos para materializar a violência no filme. Uma decisão ousada em dias que os efeitos digitais predominam; ver alguém tomar esse rumo na produção é de tecer elogios, ainda mais quando muito bem executados. Tripas, sangue, olhos perfurados, manchas no rosto, esfaqueamentos, nudez e amputações protagonizam por todos os cantos. Basta ver a primeira cena de gore quando uma fritadeira é arremessada no rosto do atendente e vemos sua pele derreter enquanto um infectado puxa a mesma com um sorriso lindo no rosto – reforçando o elemento irônico.
Não há tanta substância, nem mesmo metáforas que não sejam leves; o filme valoriza explorar a violência visual, rompendo barreiras do que é aceitável ou não (ainda mais pela predominante e constante cenas de abuso sexual) o que pode gerar dois caminhos:
- O filme é ruim, pois é somente violência gratuita.
- O filme é excelente, pois ousa explorar a estética sedutora da violência.
Nem preciso responder por qual resposta resolvi seguir, afinal, me diverti horrores com todos os absurdismos que o filme propõe comparando se ele chegaria minimamente aos pés dos quadrinhos em que se inspira. E mesmo havendo limitações, pois os quadrinhos possuem uma linguagem única em seu elemento artístico, o cinema ousa ter movimento e maior verossimilhança por serem figuras reais, pessoas reais, imagens que não são desenhos, materializando aquilo que já se disse ser impossível de adaptar pelo nível de crueldade que suas páginas contém.
Ao retratar os potenciais sádicos de uma sociedade sem filtro algum dos tabus, morais e éticos, extrapolando a temática do vírus em uma jornada pelo estudo da violência, buscando impacto e canalizando criativamente os piores pesadelos do que um indivíduo é dotado de promover em outro, o filme é singular, polêmico, difícil e complexo. No fim, é honesto; querer vender mais do que é, conjurar grandes debates ou discutir verdades absolutas, não é a proposta de A Tristeza. É uma aterrorizante, divertida, nojenta, traumática e magnífica viagem ao mais fundo do poço que envolve a malignidade do indivíduo sem filtros. É uma grande tristeza. Melancolia. E incrivelmente sensual…
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Filme: A Tristeza (Ku Bei) Elenco: Berant Zhu, Regina Lei, Tzu-Chiang Wang, Ying-Ru Chen, Wei-Hua Lan, Emerson Tsai, Ralf Chiu Direção: Rob Jabbaz Roteiro: Rob Jabbaz Produção: Taiwan Ano: 2021 Gênero: Terror Sinopse: Um jovem casal tentando se reunir em meio a uma cidade devastada por uma praga, que transforma suas vítimas em sádicos enlouquecidos e sanguinários Classificação: 18 anos Distribuidor: Raven Banner Entertainment Streaming: Reserva Imovision Nota: 9,0 |

