Amor Apocalipse, dirigido por Anne Émond, acompanha Adam (Patrick Hivon), um deprimido dono de canil. Seu mundo está acabando e nós somos os culpados: apocalipse climático. Certo dia, em uma conversa com sua amada, a atendente telefônica Tina (Piper Perabo), Adam escuta pelo celular um desastre natural ocorrendo onde a mulher está. Então, parte em uma jornada para encontrar, e resgatar, seu amor.
Enterre seus Mortos
Impossível assistir esse filme e não pensar em Enterre seus Mortos (2024), terror brasileiro de Marco Dutra. Embora os longas não compartilhem exatamente uma proximidade na articulação formal, há um parentesco bem evidente. Ambas as obras trabalham em cima de uma cosmologia muito similar: o romance em meio ao apocalipse. Filmes sobre a persistência do amor num mundo em ruínas.
No filme de Dutra, o colapso assume uma dimensão tanto material quanto metafísica. É, também, um apocalipse climático, mas não só. O longa encontra uma certa aproximação com o horror cósmico, tangenciando-o para o terror; o desastre ambiental se alinha com algo mais vasto, abstrato, e mais próximo do indescritível.
Émond, ao contrário, recusa o fantástico. Um filme muito mais pé no chão, cerceado à realidade. Em Amor Apocalipse, o fim do mundo é uma consequência orgânica da própria natureza ao ser transformada pela ação humana. Algo que, paradoxalmente, talvez deixe a obra ainda mais amedrontadora do que o terror de Dutra. Afinal, ao pertencer ao reino da imaginação, o horror cósmico oferece ao espectador uma certa distância confortável; já a catástrofe de Émond é reconhecível, ela desvanece as fronteiras entre a ficção e o presente. Não há mais distância confortável, já estamos vivendo naquele mundo — enquanto, felizmente, o apocalipse lovecraftiano ainda não chegou na realidade material (talvez ano que vem).
A estranheza de Amor Apocalipse
Como pontuado por Tina, Adam carrega o nome do primeiro homem (e, talvez também, do último). Adam é um cara estranho. “Estranho” no sentido de “divergente da mediana populacional”, mas não no sentido em que a estranheza impede a identificação. Pelo contrário, talvez eu, você, e muitos outros, reconhecemos sua singularidade em nós mesmos. Ele é uma figura cada vez mais familiar da sensibilidade contemporânea: o indivíduo que compreende a dimensão da catástrofe e, justamente por compreendê-la, experimenta uma forma particular de melancolia. Ele sabe que tudo está ruindo e não há nada a fazer, consciente da própria impotência.
Nossas pequenas ações cotidianas mal se revertem em um efeito positivo perceptível, enquanto os verdadeiros mecanismos responsáveis pela devastação continuam por aí, destruindo o mundo, operando em uma escala incomparavelmente maior. O filme apresenta isso como um estado de espírito, como a personalidade de alguém que vive sob o peso de uma consciência que pouco oferece em termos de solução.
Irônico, escrever este texto pontuando tais constatações gera em mim uma sensação parecida: reconheço o problema mas não posso fazer muito para mudá-lo. A crítica, assim como a consciência ecológica, frequentemente se vê presa à mesma contradição. Como consequência, agora parece mais que estou tecendo um desabafo trágico do que uma crítica em si. Provavelmente eu também sou um cara estranho. Adam é um cara estranho. Talvez todos nós sejamos estranhos.
Bagunça formal
Émond compreende essa natureza e faz um filme tão estranho quanto seu protagonista — e quanto nós (ao menos, se você está interessado o suficiente para ler até aqui, imagino que o apocalipse climático também seja uma preocupação sua). Amor Apocalipse é excêntrico, se afasta da imposição de se acomodar em qualquer gênero. Parece comédia, mas não exatamente; é meio melodramático, mas meio que não é; flerta com o terror, mas de um modo difuso demais para se perceber dentro do gênero; poderia ser um romance, mas o casal é muito estranho para isso — inclusive, ressalto que os dois atores protagonistas estão ótimos. É tudo um pouco, e é nada de muito. E, por mais estranho que possa parecer (mas faz sentido dada tanta estranheza no mundo), faço tais constatações como uma alta forma de elogio.
A instabilidade formal é a matéria do filme. O longa só soa inconsistente se você ainda encara aquele mundo (e por consequência o nosso) como uma forma coerente de experiência. Quando, na realidade, pouca é a coerência que resta por aí; já foi tudo pras cucuias, salvem-se quem puder! Para contemplar uma realidade material na qual as emoções perderam suas delimitações, Amor Apocalipse precisa, assim, ser tão estranho quanto seus personagens — e, talvez, tão estranho quanto nós mesmos.
Ora a câmera está lá, imóvel em um plano aberto, observando a ação em uma distância passiva; ora se permite ser arrastada pelo caos da cena. Um plano romântico pode tornar-se assustador de um momento para o outro; este, por sua vez, transita para um instante cômico. As tonalidades não se sucedem segundo uma lógica precisa, é um filme que são várias coisas ao mesmo tempo.
De certo modo, um pouco como a cabeça do espectador da década de 2020: pós pandemia, acumulando guerras no horizonte, cotidianamente vivenciando situações políticas absurdas, mudanças climáticas alarmantes progressivamente mais presentes, e possivelmente ainda mais catástrofes que estou esquecendo. Curiosamente, essas mudanças em tom não chegam a se atrapalhar; pelo contrário, um aspecto intensifica o outro. Nada existe isoladamente, são questões que transmutam a obra em um caldeirão efervescente de tragédias, melancolias, risadas e beijos.
Amor Apocalipse é cringe?
Sim, é um longa meio direto demais no seu discurso. Não é uma verborragia no sentido “os personagens falam demais”, mas “os personagens contextualizam frequentemente, diretamente e de modo meio raso, aquele mundo”. Um pouco lacre de twitter? Um pouco. Em certos momentos, próximo da linguagem moralizante e performática que domina parte do discurso digital contemporâneo.
Verdade seja dita, não nego: é um filme um pouco cringe — posso usar essa palavra? Ou é cringe falar cringe? Mas, questiono: o quanto ser cringe realmente incomoda? É possível subverter o cringe, a partir do reconhecimento e da aceitação do seu estado, para transformá-lo em quase um camp orgulhoso?
Fica a critério de cada um; particularmente, me parece tanto ser o objetivo, quanto o resultado, do filme. Amor Apocalipse sabe que pode soar desajeitado, mas mesmo assim decide insistir em suas escolhas (ou não-escolhas). Como dito e reforçado várias vezes neste texto, é um filme estranho com pessoas estranhas; ele sabe e abraça isso, aceita sua própria inadequação. Um filme estranho em um mundo estranho. Em determinado momento, há um personagem antivacina; na realidade, não é raro encontrarmos por aí um maluco negando a eficácia das vacinas. Ser antivacina não é, também, cringe? A irracionalidade pública é gradualmente mais extravagante. O mundo é cringe — e, sem dúvida, este texto também é.
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Filme: Amor Apocalipse (Amour Apocalypse) Elenco: Patrick Hivon, Piper Perabo, Gilles Renaud, Elizabeth Mageren Direção: Anne Émond Roteiro: Anne Émond Produção: Canada Ano: 2025 Gênero: Comédia, Drama, Romance Sinopse: Em meio ao colapso climático, Adam atravessa o país para salvar sua amada de um desastre natural. Classificação: 16 anos Distribuidor: Synapse Distribution Streaming: Indisponível Nota: 7,0 |

