Esse texto contém spoilers
Curry Barker, no auge dos seus 26 anos de idade, já se consolida como um dos nomes mais promissores do gênero Terror; pois é fato que, após a impactante estreia de Obsessão – filme que ganhou hype no boca a boca – há de se ficar de olho nesse novo talento revelado. Isso porque Barker, sendo um dos muitos atuais cineastas que iniciaram no YouTube, já mostrou que seu olhar criativo para o terror é algo ímpar. Obsessão veio para comprovar isso, já que funciona em todas as frentes possíveis do terror.
Quando eu costumo dizer que “menos é mais”, filmes como esse vêm para validar esse pensamento clichê (porém realista), já que trabalha tantas possibilidades provocadoras e até inovadoras de uma maneira tão simples e objetiva, fortalecendo seu texto organicamente a cada novo choque. Possuindo um tema que já fora trabalhado em tantas outras obras, audiovisuais ou não, teria tudo para ser mais um caso de: “é só uma temática batida num filme qualquer”, mas o que vemos é algo que beira à genialidade. Há uma irrefragável originalidade, enquanto cada cena passeia pelo âmago do horror.
Assim como A Substância, estupendo terror de Fargeat onde utiliza-se elementos viscerais do terror para trabalhar assuntos mais comumente ligados à realidade feminina, Obsessão também é uma ode a um dos maiores pesadelos de qualquer mulher: a perda de autonomia sobre o próprio corpo, sobre as próprias vontades. Essa alegoria sobre domínio e posse sobre o parceiro é tão perturbadoramente explorado que essa concepção por si só já é o suficiente para sustentar o terror sugerido. É de uma ansiedade que só vai escalonando, proporcionando uma insegurança em relação à próxima bizarrice que virá, que não dá trégua.
É evidente que não é necessário uma identificação pessoal com a alegoria de um filme (seja ele de terror ou não) para conseguir se engajar com a história, mas é fato que, para nós, mulheres, Obsessão suplanta praticamente todos os dispositivos que um filme de terror poderia proporcionar, pois nos colocamos no lugar de Nikki: uma mulher cheia de vida, de personalidade, com seus sonhos e vontades, de repente, virar um mero fantoche por conta de um cara que desejou que ela o amasse mais do que tudo no mundo… é de fato aterrorizante. Não é um mero “fé nas malucas” o que o filme tenta retratar – a perspectiva da moça é o que dá o real peso daquela realidade agonizante.
Bear, o jovem que quebra o tal artefato supostamente místico chamado salgueiro dos desejos o faz “sem querer querendo” – sabe quando queremos muito alguma coisa, mas, no fundo, sabemos que pode ser algo possível de acontecer? É meio que isso o que ocorre com o personagem. Porém, para além da clichê frase “cuidado com o que você deseja”, Obsessão vai além, propondo mais algo como: “você realmente consegue sustentar obter aquilo que desejou?”. Nesse sentido, o personagem é tão bem escrito que vem para desmistificar esse estereótipo do cara legal e bonzinho. Quase um lobo em pele de cordeiro (ou seria em pele de urso?).
Há uma perspicácia no modo como escolhe escalonar os limites (ou sua falta) dos personagens. Em relação à Nikki, é como se o espectador temesse até mais do que o Bear sobre qual será sua próxima ação, uma vez que a tensão entra em erupção quando ela está em cena (ou até mesmo quando ela não está em cena). Já em relação ao moço, em certo ponto, chega a ser esquisito o fato dele ficar inerte diante de tanto acontecimento atroz. Se a moça, entre inúmeras outras esquisitices, chega a cozinhar o gato morto de Bear para lhe fazer um sanduíche, e ele não “largar o osso”, o conceito de bom moço já morreu no momento em que a verdadeira Nikki também ‘se foi’.
Logo, o astuto roteiro de Barker, ao buscar dessacralizar essa figura do homem bonzinho que pode ser tão egoísta e possuir tantas falhas morais quanto qualquer um, e de questionar brilhantemente de onde, ou de quem, realmente parte esse conceito da obsessão, faz com que um “mero” terror frontal tenha um impacto até mesmo de reflexão social, cotidiana. Bear é o retrato estereotipado de muitos homens da vida real, que almejam uma mulher somente porque a admiram superficialmente, a acham bonita; mas, conhecer, de fato, conhecem? Aquele tal “objeto de desejo”? Nunca foi sobre amor, e sim sobre o desejo da posse.
Inde Navarrette brilhará em muitos outros filmes de terror, sendo a revelação do ano. Ela consegue captar e transmitir emoções com cada micro expressão, com cada alteração de voz, e uma fisicalidade que compreende o desespero de sua personagem de uma maneira única. Somente a sua presença, sua silhueta, sua penumbra, alimenta uma aflição que suplanta até mesmo o que está sendo dito (pegamo-nos sentindo pavor de “somente” uma mulher!). Claro, isso unificado à fotografia, que brinca muito com sombras, com a escuridão total ou parcial, a fim de deixar-nos na dúvida cruel se queremos ou não conseguir enxergar com clareza o que está em cena.
Obsessão já nasce sendo um clássico contemporâneo, sem hipérboles. Ousado com toda a frontalidade e violência constantes, astuto em sua provocação social. Brinca com pontuais jumpscares que vêm não somente pra funcionar, como pra fazer nossa alma tirar print do nível dos sustos, enquanto trabalha o terror usando uma possibilidade do cotidiano, embalando tudo isso num humor cínico que é explorado na medida certa, sem anular a tensão dos acontecimentos. Não há subterfúgios, excessos de signos ou maiores enfeites, o foco é o que Nikki é para Bear a partir dali, a sua relação claustrofóbica, de toxicidade, como as coisas irão se dar diante desse cenário de terror para ambos: e isso é mais do que suficiente para tornar o filme um primor.
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Filme: Obsession (Obsessão) |

