Cartas a Meus Pais Mortos, filme do diretor chileno Ignacio Agüero, é um retrato das fraturas de uma sociedade ainda atormentada pela ditadura. Diversos são os filmes brasileiros que, ainda hoje, resgatam a nossa história sobre os anos que seguiram a 1964 – época da ditadura empresarial-militar – para que nunca esqueçamos e, assim, nunca deixemos acontecer novamente. Entretanto, assim como no Brasil, que em 2018 elegeu Bolsonaro presidente (um entusiasta da época da ditadura), o Chile teve como presidente eleito em 2025 José Antonio Kast, um político de direita que teve como primeiro ato do seu mandato a nomeação de 24 ministros. Desses, dois já haviam sido advogados do ditador Augusto Pinochet, evidenciando uma clara relação de simpatia entre o presidente eleito e a ditadura chilena (1973 – 1990).
Ignacio Agüero constrói este documentário utilizando a janela para o jardim da antiga casa dos seus pais – já falecidos – como um portal para o passado. É olhando através dela que se deixa levar pelas memórias afetivas, por vezes até utilizando registros antigos para lembrar de seus familiares. A janela possui essa magia; ela é magnética. Agüero, antes de se tornar um cineasta, estudou arquitetura, então sabe bem a importância desse elemento do ponto de vista funcional de qualquer estrutura. Ela serve para a entrada de luz natural, para a circulação de ar e como conexão visual com o outro lado. Para essa crítica, interessa-me muito mais esta última característica.
O diretor faz, a todo momento, fazer conexões entre o presente e o passado. Entre quem ele é e quem seus pais foram. Entre um Chile esperançoso com a vitória de Salvador Allende e um país que sangrava após o golpe liderado por Augusto Pinochet com a ajuda dos Estados Unidos. Esse olhar focado em criar elos fica mais evidenciado quando o filme assume um caráter de entrevista, no momento em que Agüero se encontra com Marcos Medina, um antigo colega de trabalho de seu pai.
Embora o filme nos provoque a todo instante com os fatos relatados sobre a ditadura através de certo bom humor do diretor, essa entrevista – que, em um primeiro momento era para obter mais informações sobre seu pai – torna-se algo muito maior. Marcos Medina não foi só um operário em uma fábrica de tubos metálicos. Ele foi um líder sindical que contribuiu para diversos avanços trabalhistas e sociais, enfrentou toda a violência policial dos primeiros anos da ditadura, foi torturado e, posteriormente, exilou-se na Suécia. Marcos Medina torna-se, então, peça central nesta construção propositiva de Ignacio Agüero. Aquela parte da narrativa, que deveria ser sobre o pai do diretor, transformou-se em algo de que seu pai não participou, uma vez que faleceu antes do golpe de setembro de 1973.
O diretor sabe que este é um tema muito caro não só para ele, mas para boa parte da população chilena que ainda vive, tal qual a nossa, assombrada por esse passado sombrio e violento. Com uma boa dose de humor, quando percebe que investiu muito tempo na densidade da história que está contando, ele rompe com a estrutura linear dos fatos para, em um aceno ao escapismo, deter-se por algum tempo nas idas e vindas de diversos gatos no jardim e sobre o telhado da casa.
Cartas a Meus Pais Mortos serve como documento histórico e, sobretudo, como aviso do caminho pelo qual diversas sociedades estão seguindo. Nada mais contraditório do que ver uma praça com os dizeres “A revolução é necessária, a revolução é possível” tendo, ao fundo, grandes outdoors de empresas estrangeiras. Ignacio Agüero é, acima de tudo, um provocador e, ao fim, o filme não silencia. Pelo contrário: utiliza os sons dos momentos da derrubada de Salvador Allende, elemento que já havia introduzido antes por meio de desenhos feitos por crianças em uma atividade escolar.
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Filme: Cartas a mis padres muertos (Cartas a Meus Pais Mortos) Direção: Ignacio Agüero Roteiro: Ignacio Agüero Produção: Chile Ano: 2025 Gênero: Documentário Sinopse: Raúl Ruiz, cineasta chileno como Ignacio Agüero, escreveu em seu texto Para um Cinema Xamânico: “Embora muitos filósofos tenham considerado os conceitos de Sonho e Memória contraditórios […] se misturarmos esses dois termos, não deve nos surpreender que a pessoa com quem estamos falando esteja morta há anos; nem devemos nos chocar com o espanto do morto ao descobrir que estamos vivos.” Classificação: 12 anos Distribuidor: Não informado Streaming: Indisponível Nota: 8,0 |

