Nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. O esperado ciclo da vida certamente é um dos axiomas de alcance mais universal na trajetória da espécie humana. Trata-se de algo concebido como tão natural que pouca ou nenhuma resistência há em relação à ideia de que filhas e filhos têm a responsabilidade de enterrar seus genitores. Mas quando essa expectativa é quebrada por um episódio de escala trágica ímpar, a exemplo de um tiroteio no ambiente escolar, o que resta aos pais?
Quartos Vazios, ganhador do Oscar de Curta-metragem em Documentário, disponível na Netflix, busca responder a essa pergunta valendo-se de sensibilidade no registro cinematográfico do luto familiar materializado na manutenção do cômodo em que, até há pouco tempo, a inocência de sonhos infanto-juvenis repousava. A interrupção brusca dessas vidas, sem qualquer oportunidade para gozar do afeto inigualável de um abraço de despedida, é vista pelo diretor Joshua Seftel por meio de lentes que perscrutam esses “altares” de forma constrita, sabendo da nobreza por detrás do projeto idealizado pelo jornalista Steve Hartman e pelo fotógrafo Lou Bopp.
Figura popular da TV norte-americana, Hartman teve sua fama construída a partir de incursões nas quais ele, em situações de grande comoção social, como ataques a escolas com arma de fogo, procurava trazer um certo lado positivo relacionado àquilo, geralmente um ato de heroísmo. Ao notar, no entanto, a crescente onda de ocorrências dessa natureza nos Estados Unidos, o apresentador entendeu que não dava, segundo suas palavras, para continuar jogando o lixo para debaixo do tapete. Daí a ideia de encabeçar, independentemente, uma iniciativa voltada para a escuta dos pais de crianças vitimadas fatalmente, visitando in loco os quartos deixados para trás por elas, preservados intocáveis. Esse vazio captado por Bopp assume uma dimensão meramente orgânica, uma vez que cada objeto fotografado os mantém ali, fortemente vívidos na memória de seus genitores.
Algo realmente bonito no curta é a preocupação de não instrumentalizar vidas perdidas em prol da luta antiarmamentista no país. O trabalho da dupla Hartman e Bopp trata-se, antes, de uma homenagem àqueles que se foram ainda em tenra idade. O resgate de imagens gravadas de forma amadora, mostrando momentos espontâneos de felicidade em família, evidencia o fato de aquela iniciativa tentar levar pais e mães a ressignificarem o luto. Não à toa, ao fim do projeto, ocorre a entrega de um álbum contendo as fotos feitas no vazio dos quartos de seus filhos e filhas.
Quartos Vazios é daqueles filmes que fazem com que passemos dias a pensar nele, refletindo sobre o seu conteúdo. Convencional em sua estruturação narrativa, o curta consegue atingir o seu intento sem recorrer a excessos que o tornem inadvertidamente panfletário. Sua sensibilidade ao tratar da temática da cultura local do armamentismo, estabelecendo vínculos emocionais de identificação entre pais e espectadores (com ou sem filhos), é um trunfo poderoso para lidar com quem ainda nega ou subestima os males resultantes da facilidade de acesso a armas de fogo por parte de cidadãos comuns.
![]() |
Filme: All the Empty Rooms (Quartos Vazios) Elenco: Steve Hartman, Meryl Hartman, Bryan Muehlberger, Gloria Cazares Direção: Joshua Seftel Roteiro: Não se aplica Produção: EUA Ano: 2025 Gênero: Documentário, Drama Sinopse: Acompanhe o correspondente Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp enquanto eles embarcam em um projeto de sete anos para documentar os quartos vazios de crianças mortas em tiroteios em escolas. Classificação: 12 anos Distribuidor: Netflix Streaming: Netflix Nota: 7,5 |

