CRÍTICA – A CRONOLOGIA DA ÁGUA

CRÍTICA – A CRONOLOGIA DA ÁGUA

A Cronologia da Água (2025), longa de estreia de Kristen Stewart baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch, acompanha a vida de uma mulher marcada por abusos. Interpretada por Imogen Poots, Lidia tenta reorganizar a própria existência em meio a relações instáveis, vícios e uma sensação constante de desencaixe.

Talvez houvesse aqui um bom filme caso se permitisse a coragem de atravessar as amarras autoimpostas e vencer uma certa timidez moral que faz relutar em abandonar as próprias salvaguardas. Não é difícil imaginar uma pessoa que, na ânsia de se perceber aceita e incorporada em uma bolha social, performa uma persona para buscar a conquista da suposta aceitação, é? Todo mundo conhece alguém assim. Talvez você seja alguém assim. Talvez todos nós sejamos assim em alguma instância. A fabricação de si como estratégia de pertencimento. Em contrapartida, é um pouco peculiar imaginar essa máscara se transmutando em algo menos personificado — como, por exemplo, um filme. “Peculiar”, mas não “impossível”; pelo contrário: não apenas perfeitamente possível como concretizado. O filme de Stewart é exatamente isso: quer performar algo que ele não é.

O corpo em A Cronologia da Água

Há algumas sensibilidades particulares da diretora que insistem em emergir e chamam atenção para um potencial (ainda) não completamente explorado. Entre tais pontos, há um certo encanto pelos corpos — algo que até evoca a diretora francesa Claire Denis; que, inclusive, já admitiu ser fã da atuação de Stewart. Sua câmera sempre busca por corpos no plano, enquadra suas peles, suas cicatrizes e feridas. Mas, não é apenas um fascínio visual pela aparência humana, como um objeto de contemplação passiva, mas também um deslumbramento pela capacidade de tais corpos, seus desgastes e suas experiências; uma atenção à fisicalidade enquanto condição de existência.

Torsos suados, sujos, entregues ao bel-prazer do sexo. Natação: corpos como máquinas atléticas, explorando o universo infindo da água — braços que remam, pernas que empurram o corpo na trajetória horizontal da raia da piscina. Até mesmo o alcoolismo da protagonista; além de um aspecto importante de sua trajetória, é, também, um elemento que manipula, através dos efeitos físicos do álcool, o espaçamento do corpo dentro do plano. O corpo é tensionado em prol de uma investigação da experiência corporal, integrando-o à linguagem.

Imogen Poots

Como consequência dessa abordagem, Stewart dá um foco enorme à personagem de Imogen Poots. Você pode se perguntar: “uai, mas ela é a protagonista, por que não seria o foco?”. Ok, touché, bom ponto. Entretanto, segura que aqui vem a tréplica: obviamente a protagonista será o foco dramático de um filme; entretanto, não falo no sentido de desenvolvimento da trama. Falo, pensando, naquilo que faz o cinema ser cinema: imagem. Decupagem, blocagem, montagem, e qualquer outro “agem”. Poots — que está incrível no filme, vale ressaltar — é sempre o centro da imagem. Parece que os quadros sempre se organizam em torno de sua presença. Algo que vai além do privilégio esperado concedido à protagonista dentro de uma obra: o longa se constrói e se submete a essa presença; ela torna-se o eixo em torno do qual a imagem se organiza.

Enquanto escrevo, um tempo após ver o filme, tenho dificuldade de me lembrar de um único plano onde ela não estava presente; sua ausência não é contemplada como possibilidade formal. Poots é o imã que atraí a câmera de Stewart; sempre o pilar da imagem, estabelecendo uma fidelidade da lente ao corpo que beira a devoção — compreensível; se eu filmasse Poots, também seria devoto à sua imagem. Inclusive, em muitos momentos, ela se encontra virada para a câmera — poucos são os instantes em que está de costas, evitando, assim, gestos de distanciamento. Nesse sentido, a diretora tece uma sintonia enorme entre a principal atriz e o dispositivo fílmico, sabendo como extrair o melhor do potencial da intérprete britânica e empurrando-a a uma intensidade que sustenta o filme.

Estética comportada

Entretanto, contudo, todavia, o mundo não é apenas flores. A Cronologia da Água é um filme não linear — o que, por si só, não é um problema, mas Stewart parece se perder dentro dessa estrutura. Torna-se um empecilho quando alinhado com a pseudo-necessidade que sente em tentar se adequar às tendências contemporâneas do cinema independente — e aí voltamos na persona performática que eu comentei no segundo parágrafo. Um filme que constantemente busca se conformar e aderir a um repertório já reconhecível dentro de um recorte específico.

A estética sempre bonitinha, pronta para ser transformada em gif para as redes sociais; a imagem “natural”, cuidadosamente imperfeita, com iluminação orgânica; a narração em over, meio aspirante à poesia difusa; a leveza quase protocolar imposta a uma matéria que exige fricção; as variações de razão de aspecto que sinalizam ruptura sem necessariamente produzi-la; e por aí vai. Tudo isso compõe um vocabulário que foi assimilado como estilo por um nicho cinematográfico e, agora, é utilizado meramente como ornamento comportamental.

O que emerge é uma espécie de disciplina disfarçada de espontaneidade. Soa como se Stewart sentisse uma obrigação de se adequar ao padrão comportadinho do recorte ao qual acredita que seu filme se encaixa — sabotando, por conseguinte, as ideias que realmente funcionam no longa. A obra se mantém dentro dos limites do que reconhece como seu próprio campo de pertencimento, como se respondesse a uma expectativa anterior à sua existência.

Autossabotagem da forma

Há, então, um descompasso. As ideias que parecem mais naturais — aquelas que insinuam uma relação mais radical com o corpo e com a memória — são continuamente atravessadas por esse desejo de adequação. No fim, acabamos com um aglutinado de artimanhas que, alinhadas à não-linearidade estrutural, fazem o filme ficar sem caminho, repleto de fragmentos dispersos que possuem dificuldade de se adequar uns aos outros. Um acumulado de procedimentos que não chegam a constituir uma unidade, apenas coexistem. O que resta é a sensação de um filme que ainda não decidiu como existir.

Um filme que habita no intervalo entre aquilo que poderia ser e aquilo que se permite ser. Inegavelmente, existe uma pulsação aqui, mas nunca se radicaliza; ela é contida, domesticada, reconduzida a um campo de legibilidade já conhecido. Há algo de revelador em um filme que expõe, mesmo que involuntariamente, o desejo de pertencer — não apenas socialmente, mas esteticamente, dentro de um regime de formas já validadas. Nesse sentido, sua falha é também seu sintoma.


Pôster do filme A Cronologia da Água Filme: The Chronology of Water (A Cronologia da Água)
Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Jim Belushi, Tom Sturridge
Direção: Kristen Stewart
Roteiro: Kristen Stewart
Produção: EUA, França, Letônia, Suiça
Ano: 2025
Gênero: Cinebiografia, Drama
Sinopse: Lidia Yuknavitch tenta reorganizar a própria existência em meio a relações instáveis, vícios e uma sensação constante de desencaixe.
Classificação: Livre
Distribuidor: Filmes do Estação
Streaming: Indisponível
Nota: 3,0

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