CRÍTICA – MALDIÇÃO DA MÚMIA

CRÍTICA – MALDIÇÃO DA MÚMIA

O cinema de terror da atualidade está passando por uma visível crise de criatividade. Em meio a poucos bons filmes, sendo mais regra do que exceção nos depararmos com algo “mais do mesmo” (ou sequências que ninguém solicitou), Maldição da Múmia, de Lee Cronin, é um terror sobrenatural que tenta reinventar o clássico mito da múmia com um olhar mais fora da caixa, largando o teor aventuresco e apostando no sobrenatural. Infelizmente, é mais um desses filmes que mais se sustenta pelo impacto de cenas isoladas do que pela narrativa em si, que é muito frágil.

O longa já inicia com uma cena de abertura “contextualizadora” um tanto artificial e sem impacto, transmitindo bem as impressões iniciais e a possível atmosfera do que acompanharemos depois a partir dali. E de fato, não falha: todo o escopo clichê em torno da cena inicial não abandona o filme, fazendo com que essa artificialidade se alastre cada vez mais; não somente na imagem, mas sobretudo no roteiro. Não é que não haja coisas que funcionem no filme, mas são realmente poucos os pontos a se destacar. O fato de as atuações serem ok já faz o filme sair na frente de muitos lançamentos atuais que são dignos de dó (cof, cof, Silent Hill…).

A verdade é que Maldição da Múmia mais parece ser um filme qualquer de possessão de forças malignas do que de fato um filme que se sustente tendo como base todo esse pano de fundo do mito da múmia e de toda ambientação do Cairo. Quando o filme se fecha na dinâmica da família — sobretudo os pais — cuidando da mocinha perdida por tantos anos, naquela situação aterrorizante, praticamente agonizando, o título eleva praticamente todas as nuances que o gênero Terror pede e consegue entregar o que funciona. Já não se pode dizer o mesmo sobre o arco investigativo terrivelmente fraco sobre o que de fato aconteceu com a pobre criança.

Um estilo de terror reminiscente de outro é algo que sempre ocorrerá, ainda mais se tratando de um filme cujo intuito é atualizar, sob uma ótica completamente diferente, o mito que já fora explorado em outras oportunidades. Maldição da Múmia é muito mais comparável com qualquer filme de terror atual do que com algum filme que também compartilhe essa mesma temática. O que não é um problema, serve apenas para elucidar a seguinte constatação: o filme funcionaria muito melhor se não tivesse as “amarras” do seu background, desenvolvido da maneira mais desinteressante possível.

Além disso, o filme não possui identidade própria. A experiência é basicamente: assistir ao filme > ligar a suspensão de descrença e coerência ao máximo > compará-lo a tantos outros > se espantar (ou até rir, por que não?) com o nível espalhafatoso de certas cenas = nada mais. Pensando no roteiro, não é nada recompensador, uma vez que o que acompanhamos exige no mínimo uma boa vontade por parte do espectador para poder “comprar” tal absurdo. É que receber a filha em casa, definhando, em tal estado físico, sem sequer contar com algum tipo de ajuda externa (será que não existe nenhum médico naquelas redondezas?), é um misto de absurdo com jocoso.

Até mesmo o não tão conhecido (e interessante, apesar dos pesares) primeiro longa de Cronin,  The Hole in the Ground (2019), ou, em português, O Buraco no Chão, consegue cativar mais, mesmo com a simplicidade da ideia geral. É um roteiro cheio de nuances psicológicas e funciona mirando no simples, enquanto em Maldição da Múmia, quanto mais “enfeita”, mais faz o filme decair. A duração, evidentemente, não é justificável, esticando além do que deveria aquela história que, apesar de bem sombria, nem é tão complexa quanto quer aparentar. Isso sem falar de certos personagens secundários, que aparecem e depois somem, sendo inteiramente dispensáveis.

Maldição da Múmia é um filme que funciona mais na frontalidade do horror do que em seu texto. O body horror aqui é o que segura as rédeas e salva o filme de ser apático, esquecível, já que, para o bem ou para o mal, há umas boas cenas caóticas que são de fato marcantes. Certas agonias são palpáveis, quase proporcionando dor física e repulsa ao espectador; uma pena o impacto narrativo ser colocado em segundo plano. Até quando certos cineastas irão crer, equivocadamente, que a alma de um filme se dá pelo impacto isolado de certas cenas? O fato é que não há real impacto cênico sem um texto sólido, e é o caso dessa releitura de Lee Cronin.


Pôster do filme Maldição da Múmia

Filme: Maldição da Múmia (Lee Cronin’s The Mummy)
Elenco: Jack Reynor, Laia Costa, May Calamawy, Natalie Grace, Verónica Falcón
Direção: Lee Cronin
Roteiro: Lee Cronin
Produção: EUA, Irlanda
Ano: 2026
Gênero: Terror
Sinopse: A filha de um casal de jornalistas desaparece no deserto após um encontro misterioso. Oito anos depois, após ser encontrada dentro de um sarcófago, o reencontro rapidamente se transforma em um pesadelo para a família.
Classificação: 18 anos
Distribuidor: Warner Bros. Pictures
Streaming: Indisponível
Nota: 5,0

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