Na porção norte da Zona da Mata de Pernambuco, a 75 km do Recife, encontra-se Buenos Aires, município com 13 mil habitantes cujo nome invariavelmente nos remete à capital argentina. A toponímia homônima (isto é, cidades com o mesmo nome) é um fenômeno mais comum do que talvez imaginemos — basta pensar nos casos de Paris (França e Texas), Córdoba (Espanha e Argentina), Cambridge (Reino Unido e Massachusetts), etc. Mas como duas cidades distantes uma da outra e com histórias e formações sociais tão distintas podem possuir vínculos que lhes permitam ir além da mera curiosidade homonímica?
Essa pergunta permeia de maneira tácita o documentário BuenosAires, longa-metragem da diretora Tuca Siqueira que irá estrear no Cine PE – Festival Audiovisual neste mês de junho e, logo em seguida, chegará às salas de cinema do país. Nele, explora-se a pequena cidade pernambucana com o objetivo de expor as pretensas relações entre ela e sua xará às margens do Rio de la Plata, por meio da inesperada influência portenha no cotidiano rural buenairense.
Em seus instantes iniciais, quando se observa o encontro de um caçador de tesouros antigos com brincantes do maracatu, tendo por base a premissa poética de que a vida é um sonho, BuenosAires se mostra promissor, sentimento este reforçado pelo inusitado emprego da voice over, levada a cabo por uma onisciente narradora hispanohablante — o que demanda legendas na tela em vários momentos, algo raro em se tratando de uma produção brasileira.
Por mais simpática que seja a ideia sustentada pelo documentário quanto à existência de uma “irmandade à distância” entre as duas cidades, a verdade é que o tom superficial e estereotipado do filme fragiliza sua tentativa de respaldar tal ponto de vista. A narrativa se conforma em apresentar, como elementos típicos da presença argentina na Buenos Aires tropical, o fato de uma filha da terra ter se casado com um hermano que optou por morar ali com ela, ou, ainda, a venda de empanadas por empreendedoras locais que aprenderam no YouTube como fazê-las. Particularmente, também soam como inautênticas as cenas em que o mestre do Maracatu Estrela Dourada entoa versos em homenagem à seleção argentina de futebol.
Por falar em futebol, os momentos envolvendo este esporte revelam-se alguns dos poucos acertos do longa em termos de tratamento do material filmado. Ainda que haja um foco exaustivo na história de times amadores fundados ali e batizados com nomes de clubes famosos como o Boca Juniors e o Peñarol, são pertinentes, socioculturalmente, as imagens mostrando uma certa predileção pela seleção argentina expressa pelo número significativo de pessoas que vestem a camisa alviceleste de Lionel Messi em detrimento do manto verde e amarelo Canarinho.
Ao término da exibição, a sensação deixada é a de se ter assistido a um episódio emulado do Globo Repórter, mas sem o carisma da dupla Sandra Annemberg e William Bonner. O maior problema de BuenosAires não reside em suas personagens, e, sim, na maneira como se busca encontrar nos mesmos um legítimo “argentinismo”. Na melhor das hipóteses, o que há é uma espécie de relação afetiva espúria mantida à base do desespero de tentar estabelecer (inconscientemente ou não) uma mítica turística em torno da cidade, erguida no lastro da economia canavieira; na pior das hipóteses, no entanto, revela-se aqui, não intencionalmente, um caso emblemático de complexo de vira-lata brasileiro elevado à quintessência.
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Filme: BuenosAires
Elenco: Vitória, Zé Paulo, Leonardo, Josi, Barachinha, Neném Modesto, Biarte e Marcelo
Direção: Tuca Siqueira
Roteiro: Tuca Siqueira
Produção: Brasil
Ano: 2026
Gênero: Documentário
Sinopse: Na Zona da Mata de Pernambuco, Nordeste do Brasil, o município de Buenos Aires tem o mesmo nome da capital da Argentina. Uma professora de espanhol apresenta personagens e lugares da cidade, uma paisagem de contrastes sociais com influências das diferentes culturas. Jogos de futebol, um desfile do Maracatu Estrela Dourada e a chegada de um argentino como novo morador evidenciam essas ligações durante a última Copa do Mundo.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: ArtHouse
Streaming: Indisponível
Nota: 3,5 |
Sobre o Autor
Recifense, 40 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígenas e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland e um perfil no Letterboxd. Integrante do Podcast Cinema em Movimento e do site Club do Filme.