CRÍTICA – DIA D

CRÍTICA – DIA D

São poucos os realizadores capazes de proporcionar alumbramento, daqueles que nos fazem parecer crianças em uma sala de cinema pela primeira vez. O uso figurativo dessa regressão temporal não é mera hipérbole, é ligada ao período em que há encanto no mundo, onde quer que se olhe. Que um filme consiga atingir tal façanha, é cada vez mais raro. O cinema do sublime exige uma confluência de potências que transcendam épocas e lugares; que estimulem as sensibilidades mais primordiais da humanidade; que encantem como fazem as lendas às crianças. Bem, Steven Spielberg volta seu olhar aos segredos do espaço mais uma vez, e o que frui disso é Dia D (2026), uma singularidade avassaladora. A fim de preservar a experiência do leitor, esta crítica não contém spoilers.

No filme, a apresentadora do tempo Margaret Fairchild, interpretada por Emily Blunt, ganha habilidades estranhas após receber a visita de um pardal misterioso, como a de sentir onde está — e de ser instigada a ir atrás dele — o fugitivo Daniel Kellner, interpretado por Josh O’Connor, que planeja divulgar dados sigilosos que comprovam a existência de extraterrestres. Enquanto isso, o diretor da organização secreta Wardex, Noah Scanlon, interpretado por Colin Firth, faz de tudo para encontrá-los e para impedir que esses dados sejam divulgados. Todo o elenco está espetacular, a trama é extremamente envolvente, a direção é fora de série e tudo mais. Saio do protocolo e passo rapidamente por esses aspectos, fundamentais, sem dúvida, pois a excelência técnica é o ordinário para o cinema de Spielberg. Quero adentrar em algumas outras questões para desenvolver o debate.

Dia D é o blockbuster americano em sua forma pura, o que é mais que esperado, haja vista quem assina a direção. Spielberg exibe todos os traços de sua “americanidade universal”, um tropo que consiste no protagonismo dos Estados Unidos em todas as instâncias; que estabelece um planeta em comunhão ianque; que faz com que o GPS dos alienígenas os direcione única e exclusivamente ao território norte americano — características estas que são vistas em seus clássicos Encontros Imediatos do Terceiro Grau (1977) e E.T. O Extraterrestre (1982). O filme não tenta esconder o tropo, pelo contrário, parte de uma intenção ingênua de, por parte de Margaret, propor um laço planetário utópico, que elevaria a humanidade a uma nova era, e, por parte de Daniel, tratar de anseios contemporâneos globais, como o ocultamento de dados. Fruto de seu tempo, no qual as fake news e o conspiracionismo são recorrentes — tal qual foi o comentário sobre o status quo suburbanista dos anos reaganistas em E.T. O Extraterrestre.

Uma característica notável é a presença da temática religiosa. Há uma ambivalência entre a fé cristã, representada pela namorada de Daniel, Jane Blakenship, interpretada por Eve Hewson, e a crença na vida extraterrestre. É peculiar, contudo, que as manifestações da vida extraterrestre sejam tão similares a algumas práticas comuns na Terra. A forma como mensagens são transmitidas, por meio da posse temporária de corpos humanos, é semelhante à mediunidade; há uma cena que envolve uma espécie de terapia de regressão ou hipnose; até o propósito maior dos alienígenas se confunde com certas doutrinas religiosas. O que levanta a questão, é do interesse do filme embaçar o entendimento das coisas ao ponto que a mensagem desses seres possa não ser nenhuma novidade? Ou se trata de um atestado otimista de valores universais, intrínsecos à vida? A última opção me parece mais provável, até pela inocência geral do filme, a simbologia é evidente.

Quanto a valores universais, apesar de ser uma trama com personagens adultos, a infância é marca de Dia D. O passado dos protagonistas é envolto em um mistério que, à primeira vista, parece ser apenas a frequente falha na memória de uma fase da vida tão distante, mas tão essencial à humanidade. Além disso, a descoberta das habilidades em Margaret passa por etapas similares às do desenvolvimento cognitivo infantil, como a capacidade de aprendizado de idiomas, o reconhecimento empático do outro e a manipulação de objetos, especialmente em contexto criativo. É bastante arquetípico nesse sentido, o que corrobora ainda mais com a universalidade narrativa — como a música foi em Contatos Imediatos do Terceiro Grau e como o amadurecimento foi em E.T. O Extraterrestre.

Por falar em música, John Williams retorna com seu melhor trabalho original em anos — em blockbuster, deixando o excelente trabalho de Os Fabelmans (2022) de lado —, desde Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001), de Chris Columbus, eu diria — e também um dos melhores trabalho no cinema recente, ponto. É impressionante como suas composições engrandecem cada cena, mesmo nas peças mais sutis. Enquanto assistia ao filme, ficava impressionado a todo momento e me perguntava quem tinha feito tal trilha tão inspirada e que lembrava tanto o mestre. Só podia ser o próprio. A pompa heroica e solar tradicional do compositor segue intacta e infalível; banda sinfônica não fica melhor que isso nos dias de hoje.

Se há problema em Dia D, estão nos efeitos especiais. A começar pelos animais em CGI, que são sempre um problema nos filmes, especialmente na movimentação. Nos filmes, esses modelos “atuam” como animais, e, até hoje, é muito fácil identificar se um animal é real ou é feito CGI somente pela movimentação, independente do fotorrealismo. Por si só, já é algo a se relevar pelo limite técnico, mas, em Dia D, o problema também ocorre na iluminação desses animais, pois, quando aparecem, estão destacados no plano, não mesclados com naturalidade no ambiente. A noção do vale da estranheza se aplica aqui, pois seres alienígenas são mais verossímeis que um cervo.

Em cenas de ação, também há artificialidade no CGI, principalmente na cena que envolve uma perseguição em um trem. É certo que efeitos especiais fazem parte do cinema de ação desde… ora, talvez desde sempre. Como o próprio diretor mostra em Os Fabelmans, ele foi influenciado por filmes de ação como O Maior Espetáculo da Terra (1952), de Cecil B. DeMille, que exibe uma cena icônica do descarrilhamento de um trem. Pode-se imaginar que o público assimilava com naturalidade trens em miniatura simulando o tamanho real, mas não me parece que o público contemporâneo, e me incluo nisso, assimila muito bem carros e trens em CGI aparente. Tudo isso para dizer que, no fim das contas, se foi da intenção de Spielberg trazer essa artificialidade, até que conseguiu, mas não pude deixar de me distrair rapidamente nesses momentos, mesmo que a tensão dramática tenha sido eficaz.

Dia D consagra um retorno esperançoso de Spielberg para com a humanidade e seus anseios, com qualidade formal ímpar. Pode parecer, para uns, um filme fora de seu tempo, afinal, trata-se da velha guarda do blockbuster americano aqui. No entanto, me parece justa a empreitada em nos proporcionar catarse semelhante às vistas em suas outras ficções científicas, as de um verdadeiro idealista.


Filme: Disclosure Day (Dia D)
Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
País: Estados Unidos
Ano: 2026
Gênero: Suspense, Mistério, Ficção Científica
Sinopse: A trama de DIA D explorará a existência de alienígenas, mostrando como essa descoberta irá afetar as pessoas ao redor do mundo em nossa sociedade atual.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Universal Pictures Brasil
Streaming: Indisponível
Nota: 9,0

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