CRÍTICA – LUTA DE CLASSES

CRÍTICA – LUTA DE CLASSES

Luta de Classes, é inspirado em High and Low, de 1963, uma das mais significativas obras-primas de Akira Kurosawa. Sofisticado e com precisão de relojoeiro, as glamourosas dinâmicas daquele exótico thriller trazem consigo discussões econômico-sociais em um auge técnico e estético. Na trama original, um empresário no ramo de sapatos é alvo de um esquema de extorsão que visa sequestrar seu filho em troca de $1 milhão. O problema é que os criminosos, por engano, raptam o filho de um funcionário. E daí surge o dilema.

Após realizar um de seus filmes mais famosos, em 2018, Infiltrado na Klan, o extravagante e consagrado Spike Lee fez, em 2020, o fantástico outsider Da 5 Bloods (Destacamento Blood — o último trabalho de Chadwick Boseman). Spike, além de um exímino experimentador, é um cineasta de renome (com seu ápice sendo um Martin Scorsese mais ousado estilisticamente) que mergulha destemidamente na comunidade, dialeto e cultura afro-americana.

Adotando a linguagem coloquial da comumidade afro até mesmo no título de seus mais recentes filmes (o “Da” em Da 5 Bloods equivale à pronúncia do “The”; e o “2” em Highest 2 Lowest equivale ao “To” — ou seja, “Do Mais Alto para o Mais Baixo”), este último tem como ideia servir de remake do longa de Kurosawa substituindo a classe alta japonesa pela comunidade negra em ascensão econômica nos EUA. David King, protagonizado por Denzel Washington, é um empresário consagrado no ramo da música, tem sua própria produtora e vive num prédio luxuoso no Brooklyn.

A trama reinsere cerca de 80% dos eventos do original. Luta de Classes, todavia, não funciona em quase nenhum aspecto. A falta de funcionalidade é notada logo nos primeiros minutos de projeção, recheados de excessos e quase nenhum esforço de envolvimento emocional. A começar, a estética não é bonita, com a fotografia subaproveitada do ótimo Matthew Libatique, que parece ter sucumbido a um interesse pseudo teatral, com cores fortes que não chegam a lembrar Almodóvar, mas que apresentam estranho contraste, especialmente com as imagens de fundo distorcidas, assemelhando-se a CGI mesmo sem a necessidade.

E o tom supostamente teatral é pobre pois não evidencia qualquer interpretação ou dilema moral a partir do momento em que tudo é inorgânico demais. O roteiro é um forte rival aqui, com uma construção repleta de exposição narrativa e falta de riqueza ao apresentar diálogos genéricos e amplos, principalmente com a desfavorecida personagem de Ilfenesh Hadera, que interpreta a esposa. Parece uma peça de teatro excessivamente decorada, em que se tenta a todo custo deixar tudo claro para o espectador, e falas redundantes parecem ter o intuito de reiterar a narrativa e o delivery das mesmas não passa nenhuma naturalidade.

Esse problema é quantificado pela fragilidade das duas coisas mais cruciais no cinema: roteiro e direção. Com a intenção de transpor o clássico de Kurosawa para a contemporaneidade, adicionando os aparados do mundo moderno e mencionando seus dilemas (como vício em tecnologia), não foram pensados todos os aspectos para uma experiência cinematográfica completa. Ao contrário: o filme é uma bagunça despropositada e supérflua. E a trilha sonora música-de-elevador de Howard Drossin, que é constante independente do tom da cena, beira o irritante.

Tudo bem, nem tanta bagunça assim. Washington se diverte na soberba de uma atuação extravagante que dá pra levar até o final. Mas o próprio diretor esquece que uma criação de mundo vai muito além do que apenas uma “sacada maneira”. Ora, seu melhor filme, a obra-prima Faça a Coisa Certa (1989), cria uma atmosfera e um ecossistema fantástico, onde diversos dilemas da sociedade estão ali compactados; a obra é completa, repleta de personagens fascinantes e capaz de encher o espectador de raiva, emoção, diversão e fascínio multi-sentimental.

Já em Luta de Classes, existem até diálogos constrangedores e comentários sociais toscos, como a fraca menção ao vício em redes sociais e uma perseguição mal dirigida que bifurca num evento da comunidade latina, numa menção inclusive desrespeitosa que põe porto-riquenhos como objetos de cena. E o que seria o encontro do milionário King, finalmente nos guetos sujos da realidade novaiorquina, acaba apenas revelando o distanciamento do diretor com suas próprias origens, ao adotar uma imagem distante e incongruente ao captar as ruas, preferindo destacar as edificações milionárias da cidade e decorações estapafúrdias.

Além de não ficar claro a real motivação do filme, a decupagem experimental atordoante mais incomoda do que qualquer outra coisa. Cortes extremamente rápidos e planos e contraplanos excessivamente distantes deixam a coisa toda cenicamente deslocada de qualquer tipo de entrosamento ou imersão. A direção é ruim tanto tecnicamente quanto em termos de empuxo dramático. Trata-se de um filme de sequestro com cenas de perseguição em que nada parece importar.

Melhorando no terço final com a adição do ótimo personagem de A$AP Rocky e sua cena dentro do estúdio, que é o único momento de tensão genuína, Luta de Classes é um filme autoral do Spike Lee que tem sérias dificuldades de impulso e que carece profundamente de um motivo para existir. Mastigado e plastificado, é uma enorme decepção tanto por esse desastre ter vindo de um artista tão visionário como Lee, quanto pela depredação moral, rasa e pedestre de um dos melhores filmes da história.


Pôster do filme Luta de Classes Filme: Highest 2 Lowest (Luta de Classes)
Elenco: Denzel Washington, Jeffrey Wright, Ilfenesh Hadera, Elijah Wright, Aubrey Joseph, A$AP Rocky
Direção: Spike Lee
Roteiro: Alan Fox
Produção: EUA, Japão
Ano: 2025
Gênero: Crime, Drama, Suspense
Sinopse: Quando um poderoso magnata da música é alvo de um plano de resgate, ele deve lutar por sua família e legado ao se ver preso em um dilema moral de vida ou morte.
Classificação: 16 anos
Distribuidor: Apple TV
Streaming: Apple TV
Nota: 3,0

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