CRÍTICA – CARAMELO

CRÍTICA – CARAMELO

A Netflix, acobertada por uma ideia difusa da democratização do cinema mundial, por conta de um catálogo recheado de filmes produzidos em países que estão fora do eixo comercial, como Indonésia, México e Brasil, segue intocada e saindo ilesa das críticas, justamente, pelo seu alto volume de filmes lançados que, de alguma forma, acabam agradando o grande público. O problema é que essa fórmula utilizada pela gigante do streaming se baseia na produção de filmes genéricos, muitas vezes, respondendo ao que o algoritmo determina como padrão de gosto e é dentro dessa ideia que surge o filme brasileiro Caramelo.

Protagonizado por Rafael Vitti, o filme tem em seu cartaz e em tantas outras peças promocionais, a venda de uma ideia que não se sustenta já nos primeiros minutos de filme. O título remete ao nome dado ao cachorro de rua que é encontrado pelo personagem Pedro (Vitti) e, embora o filme se inicie utilizando a perspectiva do cachorro, o diretor Diego Freitas, logo a abandona para, então, apresentar o que lhe interessa, a história de superação do protagonista. O cachorro Caramelo (Amendoim) é apenas mais um personagem que rodeia Pedro e o ajuda em determinados momentos ao longo desse extenso arco de resiliência do personagem.

A verdade é que o diretor aposta suas fichas nesse forte apelo do vínculo emocional entre o cachorro e seu dono, que já vimos em outros filmes como Marley e Eu (2008), Sempre ao Seu Lado (2009) e Quatro Vidas de Um Cachorro (2017). A grande diferença desses filmes para Caramelo é que eles, de fato, contam a história da relação dos cães com seus donos, ou seja, a produção da Netflix é, então, um engodo. O diretor quer atrair o espectador para uma história que ele não vai contar. E a ironia é que o filme tem na interação de Rafael Vitti com o cachorro Amendoim seus melhores momentos. É perceptível a ligação dos dois mesmo com o pouco tempo em que essa relação é desenvolvida.

A atuação de Rafael Vitti é solar para um filme nebuloso como esse. O ator, carismático por natureza, empresta isso ao seu personagem e a obra consegue nestes momentos alcançar a suavidade e harmonia que precisa para a forma proposta de contar essa história. Mesmo com um romance forçado entre Pedro e Camila (Arianne Botelho), ainda assim, pela simpatia do ator/personagem é possível enxergar alguma faísca de sentimento florescendo entre eles. Mas, que fique claro, isso se dá pela boa atuação do ator e não pelo direcionamento do diretor.

Pedro é um subchefe de cozinha que rapidamente vê a doma de Chef cair em seu colo. As cenas na cozinha do restaurante são dotadas de uma pseudoestilização. A câmera fecha na panela e nos preparos: o chiado dos alimentos em contato com o recipiente quente se faz presente, a câmera lenta surge para destacar aquele momento e tudo isso é embalado por uma versão abrasileirada das Quatro Estações, de Vivaldi. As cenas parecem saídas de propagandas panfletárias de um reality show culinário como o Masterchef. Mas, todo esse “estilo” fica ali, preso naquele ambiente, local que pouco será aproveitado ao longo da obra.

O filme segue aquela formula padrão: apresentação dos personagens, criação do conflito e, por fim, a resolução desse conflito. Não que esta sequência seja, necessariamente, pobre. O problema está em um diretor pouco ousado, que se sustenta e se utiliza das trivialidades do fazer cinema entregando, assim, o que de mais genérico poderia existir. Mas — sabem aquela máxima “não há nada tão ruim que não possa piorar”? —, ao colocar Pedro para enfrentar uma doença, o diretor apresenta ao espectador Leo (Bruno Vinicius), que é um dos únicos personagens negros do filme, ao lado, somente, da veterinária Luciana (Noemia Oliveira). É de extremo mau gosto a escolha de uma de suas falas, quando traz uma ironia em relação às estatísticas de mortandade da doença que os afligem — e termina sendo vítima dessa própria estatística.

Caramelo é um filme que, definitivamente, escolhe diversos caminhos equivocados enquanto que o simples seria mais proveitoso, sobretudo para o espectador. Embora as cenas de Pedro e Caramelo consigam colher frutos por conta de toda loucura e confusão presentes na vida deles, ainda é muito pouco pensar que apenas isso seria o suficiente. Infelizmente, a métrica é a quantidade de dias que o título se manteve no top 10 da Netflix e, quanto a isso, não há o que discutir. Nesse sentido, o filme foi um sucesso.


Pôster do filme Caramelo Filme: Caramelo
Elenco: Rafael Vitti, Arianne Botelho, Kelzy Ecard, Bruno Vinícius,
Direção: Diego Freitas
Roteiro: Rod Azevedo, Vitor Brandt, Diego Freitas
Produção: Brasil
Ano: 2025
Gênero: Drama
Sinopse: Pedro é um chef em ascensão que sonha em comandar seu próprio restaurante. Após receber um diagnóstico grave, ele redescobre a graça da vida com a ajuda de um vira-lata caramelo.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Netflix
Streaming: Netflix
Nota: 5,0

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