CRÍTICA – ESPÍRITOS: A MORTE ESTÁ AO SEU LADO

CRÍTICA – ESPÍRITOS: A MORTE ESTÁ AO SEU LADO

É sempre interessante acompanhar os filmes do início e apogeu da onda de filmes asiáticos de terror que manifestam a figura clássica e icônica do fantasma feminino estreado pela série de filmes japoneses O Chamado (Ring, Dir. Hideo Nakata – 1998). É um eixo temático de análise que merece atenção, quem sabe explorar nas futuras críticas e elaborar todo um conteúdo ao redor desse tipo específico de filme de terror. Espíritos

Espíritos é aquele filme que revisitei depois de muitos anos, afinal, uma obra original da Tailândia chegando no Brasil, sua divulgação no meio adolescente veio pelo boca a boca na minha cidade natal no interior paulista. Minha relação com esse gênero é delicado, pois é uma experiência que me acompanhou até os meandros da graduação (2016-2021), onde nesse período consegui superar meu total horror e medo de consumir qualquer coisa do gênero de terror. Assisti ao filme do Grito (versão norte americana, 2004) em sua época de lançamento, somente com oito anos de idade e nunca dei tanto trabalho por quase meio ano aos meus pais com noites acordando gritando desesperado com um medo imensurável dessa figura fantasmagórica. Existem resquícios presentes nos dias atuais, manifestando-se como desconforto físico, onde as sombras da casa ganham realces vivos e lívidos para uma imaginação fértil que quando racionaliza a experiência de estar assistindo qualquer filme com essa forma específica de fantasma fica apavorada. Hoje controlável, na infância, restam risadas e receios desses dias traumáticos. Então, reassistir Espíritos, outro filme que mexeu tanto com minha psique na época, com toda uma redoma de boatos e histórias ao seu redor formuladas por adolescentes criativos para espalhar histórias e aumenta-las na vigésima potência, foi no mínimo instigante.

O longa-metragem utiliza de todos os recursos mais clichês possíveis para promover a sensação de tensão e suspense. A história gira em torno de um casal que após ir embora de uma festa de casamento, enquanto conversa no automóvel, atropela supostamente uma garota que andava no meio da pista e dão fuga sem auxiliar a provável vítima no desespero do ocorrido. A protagonista Tun (Ananda Everingham) é fotografo profissional e, em suas fotos na formatura de colegial da própria irmã, vê que algumas saíram com defeito. Não é preciso dizer muito mais de quais recursos o filme utilizará para promover suas cenas de tensão. É engraçado perceber tantos recursos clichês que antigamente me apavoravam tanto, hoje não gerarem tanta tensão (mesmo com a relação traumática e frágil em torno da temática do espírito em questão), mas ainda notar como é eficaz em gerar reações em um público em busca de se assustar com o básico e simples que o terror tem de oferecer. Espíritos cumpre bem seu papel, envelhecendo bem, pois utiliza eloquentemente de efeitos práticos e com seus jogos de câmera e sombras.

A estranheza na recepção do filme na atualidade é a aderência à uma estética predominantemente norte-americana de terror. Quando se faz a experiência de assistir aos clássicos japoneses originais – O Chamado e o Grito principalmente – nota-se o quanto as adaptações hollywoodianas destroem o que há de genial na obra original em prol de um terror bem bobo e dado a jumpscares abusivos, transformando os espíritos em marionetes que aparecem nos momentos mais aleatórios possíveis em nome do susto. Espíritos abraça esse padrão norte-americano, o que não diminui a tensão muito bem elaborada de determinadas cenas, que esteticamente são bem compostas, mas não aterrorizam, esse foi de longe o impacto mais negativo que o filme mostrou ao longo dessa revisitação. Segue-se o conceito do encosto, que acompanha uma das personagens principais, aqui no caso Tun, por algum evento passado trágico que o amaldiçoou até a pendência ser resolvida, por uma solução heroica, mas que muito bem se sabe que será trágica. Chega a exaurir o quanto sempre há aquela proposta de: será que o espírito ou uma pessoa real que passou por ali no banheiro? Quem estava de fato na sala de revelação do apartamento de Tun? Será que o espírito está no banco de trás enquanto o casal anda pela mesmo cenário da pista durante o atropelamento? Jogos de espelhos, de reflexos, auxiliados com uma trilha sonora que indica quando algo de “assustador” irá acontecer, matando por completo o recurso de suspense para aquele acostumado com os clichês que rodeiam o gênero.

O mais aterrorizante fica para o flashback que explica a motivação do espírito estar perseguindo Tun. Tun é namorava a garota que, por vergonha social dela ser esteticamente “estranha” em suas palavras, nunca admitiu sua relação publicamente e, numa coincidência de encontro dela com seus amigos bêbados no laboratório escolar, acabam a violentando sexualmente enquanto ele a fotografava. Nesse momento, o roteiro cai em desastre, afinal, quando revela isso para sua namorada atual, não há o peso do tema em que o filme adentra, ficando aquela expressividade de: “puta que me pariu filha! O que tu tá fazendo que não denunciou esse arrombado para polícia ainda?”, além de que, com essa motivação, todo o eixo de heroísmo e preocupação se inverte, onde em vez de nos solidarizarmos com as mortes dos amigos de Tun, comemoramos e ficamos ansiosos pela vez do próprio protagonista! O espírito que antes aterrorizava, se torna a verdadeira heroína por matar esses filhas da puta que não deveriam nem estar vendo a luz do sol por um segundo sequer a mais. Ai está o erro central, pois é um tema demasiadamente pesado tratado de uma maneira tão jogada e leviana, que se perde a imersão proposta inicial e, torna-se um jogo de esperar logo que todo mundo envolvido (menos a namorada ou melhor, pelo menos se torna ex-namorada) morra pelas mãos do encosto.

A parte triste é ver um filme que tinha tudo para elaborar em cima de uma originalidade tailandesa para explorar o terror, explorar seu folclore riquíssimo em entidades aterrorizantes, expor sua linguagem tão distante e ao mesmo tempo instigar a adentrar mais a fundo em suas produções do gênero se perder em favorecimento de uma venda hollywoodiana. Por isso esse filme chegou tão distante no interior paulista, sinaliza o quanto se diluiu em nome do clichê que, em sua época, apavorava e ainda apavora o público despreparado cristão que se assusta tão facilmente e recorrentemente com as histórias mais básicas e bobas de possessão e espiritualidade.

No entanto, contudo, PORÉM! Há uma cena – de encerramento – que merece todo o destaque que recebeu em sua época, sendo até os dias atuais – e dentro do vasto repertório, modéstia à parte, de terror já consumidos – de uma genialidade horrorosa que promove arrepios que serpenteiam pelo corpo inteiro. A construção narrativa corre em grande parte do filme, em micro-cenas se desenrolando, plantando uma semente do que está por vir, alguém atento capta e consegue pressupor do que irá se tratar, mas mesmo já sabendo do resultado final, continua sendo incrível sua conclusão. Se fosse um curta-metragem, onde se corta toda essa barriga de cenas bem fracas e esse roteiro que inverte expectativas de um jeito tão negativo, e se trabalhasse de maneira focada no resultado final e clímax, seria um dos melhores curtas-metragens de terror!

Caso vá assistir, espere a decepção, espere risadas e um entretenimento com cenas boas, uma montanha-russa de emoções positivas e negativas com uma conclusão que entrega tudo em sua sobremesa, porém o restante dos pratos do menu degustativo foi aquela experiência mixuruca que não valeu nem um pouco todo o dinheiro e tempo investido. É aquele restaurante estrangeiro que tenta fazer e faz com mérito o MacDonalds mais comum ao redor do mundo inteiro!


Filme: Shutter
Elenco: Ananda Everigham, Achita Sikamana, Unnop Chanpaibool, Natthaweeranucl Thongmee
Direção: Banjong Pisanthanakun, Parkpoom Wongpoom
Roteiro: Parkpoom Wongpoom, Banjong Pisanthanakun
Produção: Tailândia
Ano: 2004
Gênero: Suspense, Terror, Tragédia
Sinopse: Thun (Ananda Everingham), um jovem fotógrafo, e sua namorada Jane (Natthaweeranuch Thongmee) atropelam acidentalmente uma pedestre. Eles fogem da cena do crime e retornam às suas vidas normais, em Bangkok. A partir de então Jane passa a ser atormentada por estranhos pesadelos, enquanto Thun nota que em suas fotos aparecem estranhas figuras, parecidas com fantasmas. O casal decide investigar o fenômeno e encontra outras fotografias com imagens sobrenaturais. Paralelamente, os melhores amigos de Thun começam a morrer, um a um, de forma misteriosa.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: GMM Tai Hub
Streaming: Indisponível
Nota: 6,0

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