CRÍTICA – MAR DE ROSAS

CRÍTICA – MAR DE ROSAS

Definitivamente esse filme não é um mar de rosas. Lógico que esse nome é uma ironia ao festival de histeria presente nele. Histeria essa que é sua maior qualidade. Mar de Rosas conta a trajetória de Felicidade – mais uma ironia – fugindo do Rio de Janeiro com sua filha Betinha após agredir e, talvez, matar seu marido com uma navalha em um banheiro de hotel. É a partir desse momento que o longa de Ana Carolina se torna uma sucessão de ações e performances de desequilíbrio e perturbação à flor da pele, muitas vezes sem sentido – ou não – , sobre o esgotamento das relações, principalmente das relações com mulheres. 

É interessante a maneira como o filme se reinventa. Começa um, vira outro e, no fim, já é uma nova obra. Tudo isso se dá graças à excelente direção. Os diálogos se atropelam, causando uma certa angústia proposital, que, juntamente com o excelente jogo de cena, que traz uma dinâmica de teatralidade, constrói a atmosfera do que assistimos ali. É nítido o desejo de anarquia diante de um sistema de insatisfação coletiva e enorme repressão – lembrando que o filme foi feito durante o período ditatorial. Partindo disso, nota-se que a maior parte do filme se passa em lugares fechados, o que restringe as atitudes de Felicidade, trazendo uma sensação de claustrofobia diante de tanta confusão e sentimentos misturados. Além disso, ela está a todo momento lidando com o fardo de cuidar de sua filha nada amorosa. Betinha, brilhantemente interpretada por Cristina Pereira, inclusive, tem atitudes que não condizem com sua idade aparente, tornando-a ainda mais irritante. Essa personagem caótica e inflamável é a alma do filme. É essa personagem que se contrapõe diretamente com Felicidade: enquanto a jovem é mal educada, porém livre e despreocupada quanto a opinião alheia, sua mãe esconde seus sentimentos e é claramente uma pessoa reprimida, como vemos na sequência inicial ao lado de seu marido. Essa relação entre elas, que traz uma perspectiva geracional e muito sagaz, é traduzida na emblemática cena em que Betinha tranca sua mãe em um quarto e manda um caminhão de terra despejar todo seu conteúdo lá, quase soterrando-a. A contraposição de Betinha sufoca sua mãe e todos os outros que caminham a favor da correnteza. 

As cenas são um caos, os personagens histéricos, mas não o filme. Os enquadramentos e os movimentos de câmera são muito bem compostos e executados. Funcionam como observadores daquela realidade, às vezes se aproximando e às vezes se afastando, mas não interferindo. É quase como uma peça de teatro, já que é notória a liberdade de movimentos e gestos que os atores possuem dentro de quadro. Pensando bem, eu me senti observando a natureza selvagem em um safari. É desordenado, conturbado, bagunçado, mas é a natureza. No fim de tudo, a natureza se alinha. Gosto de acreditar que nela tudo faz sentido.

Mar de Rosas é um filme tão real de sentimento que é até meio surreal. Não necessariamente tudo tem verossimilhança externa, mas com certeza tudo faz sentido dentro da lógica ali presente. Os personagens são quase terroristas, mas seus diálogos são intencionalmente questionadores. As mulheres presentes estão sempre exaustas ou descontentes com a vida e/ou seus parceiros, sendo regradas, afrontadas e insultadas constantemente. Mas isso não atinge a libertina Betinha, que não se importa e até se diverte com isso. O fantasioso e o bem-humorado, que funciona mais como um “rir para não chorar”, surte um efeito emergencial curioso. No fim das contas, deve ter sido um set divertidíssimo para se trabalhar: com atores talentosíssimos e uma equipe com anseio e sangue nos olhos para pôr a mão na massa e fazer cinema com qualidade de maneira leve. Era nítida essa energia em tela!

Filme: Mar de Rosas
Elenco: Norma Bengell, Cristina Pereira, Otávio Augusto, Myrim Muniz, Ary Fontoura, Hugo Carvana
Direção: Ana Carolina
Roteiro: Ana Carolina, Isabel Câmara
Produção: Brasil
Ano: 1977
Gênero: Comédia, Drama, Nacional
Sinopse: Mar de Rosas é a história de uma mulher que, após assassinar o marido, foge com a filha e acaba entrando em um tenso e delirante jogo de manipulação, refletido na narrativa não-linear que conta com elementos surreais.
Classificação: 14 anos
Distribuidor: Embrafilme
Streaming: Looke
Nota: 8,8

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