CRÍTICA – TRÊS VEZES ADEUS

CRÍTICA – TRÊS VEZES ADEUS

Três Vezes Adeus, o mais novo filme da diretora Isabel Coixet (Minha Vida Sem Mim, A Vida Secreta das Palavras e A Livraria), desloca-se rapidamente de uma reflexão sobre as revoadas dos estorninhos – pássaros que voam em grandes bandos – para uma discussão, aparentemente sem muito sentido, entre Marta (Alba Rohrwacher) e seu marido Antonio (Elio Germano). O desentendimento escala e finda com a separação do casal. O voo conjunto nessa jornada, então, termina para que, separados, cada um continue em voo solo.

Em poucos minutos, o desenho desses personagens fica muito claro. Marta é retraída, Antonio é extremamente sociável. Ela gosta de ser cuidada e ele gosta de cuidar. Ele gosta de contar piadas e ela ri delas. Ele é chef e ela ama sua comida. De alguma forma, aquilo que cada um entregava ao outro era o suficiente, até deixar de ser. O longa adotará esse tom verossímil, o que faz com que a obra dialogue de forma muito direta com a vida fora da tela, sobretudo no que diz respeito às relações e aos seus respectivos términos – algo tão caro, ainda hoje, para a nossa sociedade.

Coixet, ao filmar Marta em espaços públicos e repletos de pessoas, escolhe trazer uma luz e um brilho desconfortáveis para a cena. Ela satura a imagem de tal forma que chega a ser desagradável para o espectador e, com isso, fazemos rapidamente o exercício de compartilhar da mesma sensação que a protagonista, percebendo o seu desencaixe naqueles ambientes. Já sua casa, que antes era seu lugar seguro, torna-se um amplo espaço vazio, frio e sem vida.

Como se não bastasse toda a solidão que a acompanha, o ar que a envolve é repleto de melancolia. Do outro lado, Antonio, embora sofra com a ausência de Marta, segue a vida no restaurante, cozinhando e pensando em novos pratos. E embora o filme dedique alguns minutos a ele – nos quais acompanhamos memórias de sua história com Marta, como o momento em que se conheceram –, o foco narrativo permanece nela.

Marta carrega uma certa excentricidade em seu ser. Além de ser fechada para os outros – vide as poucas palavras que troca até com colegas de trabalho e com a própria irmã –, ela elege como seus espaços preferidos na cidade de Roma não os pontos turísticos, mas os de maior simplicidade, como uma grande parede com janelas que observa na rua ou pracinhas escondidas.

Ainda sofrendo pelo fim do relacionamento, ela vê sua vida virar do avesso ao descobrir um câncer em metástase. É a partir daí que tudo se transforma. Às vezes, é preciso um chacoalho para compreendermos a finitude da existência e o quanto desperdiçamos tempo com bobagens. Antes do diagnóstico, Marta se autoflagelava alimentando-se mal e remoendo seus sentimentos ao avaliar negativamente, todos os dias, o restaurante de Antonio em um aplicativo. Após a descoberta, contudo, ela passa a cozinhar, resgatando as receitas do ex-marido, e coloca cada preparo em um dos três potinhos de cerâmica que comprara no dia em que se separaram.

Essas não são as únicas mudanças. Até a câmera deixa de ofuscar sua presença nos ambientes externos, passando a filmá-la com leveza. A forma como Marta começa a enxergar a vida – e que a direção de Coixet reflete visualmente – é dotada de alegria e vontade de viver. Ao sentirmos esse gosto de felicidade, quase nos deixamos enganar pelo rumo da história, mas o próprio título da obra é um lembrete sutil do tom essencial que a narrativa assumirá.

Antes de abraçar esse peso, há um momento quase fabulesco com a entrada de uma personagem fundamental: Silvia (Galatéa Bellugi). Ela trabalha no restaurante de Antonio e, embora o sócio dele, movido por machismo, o incentive a se envolver com a jovem, Antonio reluta e não se enxerga ao lado de garotas muito mais novas. Quando vemos os dois saindo juntos e conversando, entendemos de imediato que não há interesse romântico, Silvia assume o papel de uma ouvinte. Ela faz o mesmo ao encontrar Marta. Ao desabafarem com Silvia, ambos tiram um peso das costas e, da mesma forma que surge, a jovem desaparece. Ela funciona quase como uma fada, aparece para livra-los dos ressentimentos e das amarguras.

Se em Antes do Pôr do Sol, Richard Linklater utiliza a caminhada de Jesse e Celine ao lado do Rio Sena para refletir sobre o reencontro e o tempo perdido, Coixet filma esse mesmo movimento para que Antonio e Marta percebam que o que viveram foi belo. O término não apaga a história e nem significa que ela falhou. O abraço entre eles ao final dessa cena demonstra todo o amor que sentem e sempre sentirão um pelo outro.

Três Vezes Adeus é sobre encontros e desencontros. Sobre amores e dessabores. Sobre a fragilidade e a finitude da vida. Marta sabe que não viverá para sempre e que a doença reduzirá drasticamente seu tempo. Essa lucidez serve como um sopro de dignidade para um fim melancólico. E aquela casa, que testemunhou as diversas fases da vida de Marta, em seu último capítulo recebe todos os seus amigos para uma despedida descontraída, que exala amor e saudade.


Filme: Tre Ciotole (Três Vezes Adeus)
Elenco: Alba Rohrwacher, Elio Germano, Francesco Carril, Silvia D’Amico, Galatéa Bellugi, Sarita Choudhury
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet, Enrico Audenino, Michela Murgia
País: Itália, Espanha
Ano: 2025
Gênero: Drama
Sinopse: Depois do que parecia ser uma briga trivial, Marta e Antonio terminam o relacionamento. A reação de Marta é se fechar em si mesma e ficar fora do mundo. A única coisa que ela não consegue ignorar é sua perda brusca de apetite. Já Antonio decide mergulhar de cabeça no trabalho: ele é chef de cozinha. Mesmo tendo sido dele a decisão de terminar, Marta não lhe sai da cabeça. Mas quando ela descobre que a falta de apetite tem mais a ver com a própria saúde do que com a dor da separação, tudo muda.
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Autoral Filmes
Streaming: Indisponível
Nota: 9,0

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